09 de julho de 2026
Nacional

Trabalhador rural preso injustamente é libertado

FolhaPress
| Tempo de leitura: 3 min

São Paulo - Após passar sete anos preso sem provas, o trabalhador rural José Aparecido Alves Filho custou a acreditar que realmente seria solto nesta sexta-feira (2).

"Será que é verdade? Vou passar do portão primeiro".

José Aparecido estava preso em Iperó, no interior paulista, cumprindo uma condenação de 21 anos baseada em uma delação que depois foi desmentida. Após reportagem da Folha de S.Paulo, parte da série "Inocentes Presos", o ministro Edson Fachin anulou a condenação e expediu na quinta (1) alvará de soltura do trabalhador rural.

O homem recebeu a notícia por volta da 11h. "A doutora me disse: 'Zé, seu alvará chegou'. Eu não acreditei, comecei a chorar e não parei mais."

CHURRASCO

Ele saiu às 15h58. Quando se aproximou do portão principal e viu a mulher, Vanessa, 32, e os filhos Gabriel, 11, e o caçula Fabrício, 9, acreditou. Diferentemente de outros presos, ele não precisou colocar nada no chão para abraçar os familiares. Estava de mãos vazias. "Deixei tudo. Eu doei porque tem gente que precisa muito mais do que eu. E saio daqui pra nunca mais voltar, se Deus quiser", disse.

A mulher o esperava com uma edição da Folha de S.Paulo nas mãos. "Graças a ele [jornal] que o Zé está saindo. Foi por ele que o milagre aconteceu", disse ela. 

Neste fim de semana, a família fará um churrasco para comemorar a saída de José Aparecido. "Vamos ter que fazer uma vaquinha [para comprar a carne]", afirmou Vanessa.

Nos últimos sete anos, as economias da família se foram. Sem o arrimo de família, eles vinham se sustentando com R$ 257 do Bolsa Família e R$ 200 de mesada da mãe de José Aparecido.

O "CRIME"

O crime pelo qual José Aparecido foi condenado ocorreu na noite de 24 de março de 2014, em uma área rural de Bragança Paulista (SP), a 85 km da capital, e teve como vítima o patrão dele, o sitiante José Henrique Vettori, então com 68 anos de idade.

Vettori foi rendido por homens armados quando parou a picape na entrada de seu sítio no município de Tuiuti, vizinho a Bragança. Mesmo sem oferecer resistência, ele foi agredido e morto por um dos ladrões enquanto era levado para outro local.

DECISÃO

Na decisão que o libertou, o ministro do Supremo, Edson Fachin determinou também que seja feito um novo interrogatório de Evandro Matias Cruz, réu-confesso do crime e já preso e também condenado.

Ele voltou atrás nas afirmações feitas em delegacia em 2014 e disse que José Aparecido é inocente.

"Não é justo alguém estar pagando por algo que não cometeu. Não tem por que a pessoa estar ali presa sem ter cometido o crime. Quem tem que pagar somos nós que cometemos. Ele está pagando por um crime pelo qual ele não cometeu", disse Evandro à Justiça.

Ele também relatou ter apanhado para incriminar José Aparecido. "Então, senhor, aconteceu o seguinte... Devido ao espancamento, a forma como eles me bateram, tomando choque... Eles me forçaram, mostrando fotos... Forçaram a falar que era o José Aparecido, mas o José Aparecido não teve envolvimento", disse na primeira oportunidade em que se retratou em juízo, ainda em janeiro de 2015.

Toda a dinâmica montada pela polícia, que agora terá que ser revista também, se baseia em depoimento de Evandro, dado na delegacia cerca de dois meses depois do crime, quando ele foi localizado em uma cidade no interior de Minas.