08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Homens e animais

Olga Neme Daré
| Tempo de leitura: 2 min

"Conhece-te a ti mesmo", o mandamento do oráculo continua as ser tão imprescindível, hoje, quanto na antiga Delfos e nos séculos posteriores. Permanece como um grande marco que define um ideal de compreensão e aperfeiçoamento de todo ser humano que busca acender uma luz em seu interior.

François VI, duque de La Rochefoucauld e príncipe de Marillac, nasceu em Paris, em 15 de setembro de 1613, numa das famílias mais nobres e tradicionais da França e morreu em 17 de março de 1680, na mesma cidade.

Ele, como poucos, olhou para sua intimidade com clareza árida e naturalidade rígida, para entender, realmente, as falhas de si mesmo, bem como as dos seus semelhantes.

Suas máximas, expressão característica do classicismo francês, conservam até hoje sua força provocadora, ao exprimirem com veracidade o comportamento do gênero humano.

Sua celebridade veio com "Reflexões ou sentenças e máximas morais", de 1665-1678, obra conhecida como "máximas", onde La Rochefoucauld expressa sua indignação pela vida e a convicção do intrínseco egoísmo da natureza humana: "Se nós não tivéssemos defeitos, não teríamos tanto prazer em notá-los nos outros".

Homenageando La Rochefoucauld, evidenciando respeito e admiração, deixo aqui um trecho do livro Máximas e reflexões, intitulado: Da relação dos homens com os animais.

"Quantos homens não vivem do sangue e da vida dos inocentes! Uns, como tigres são sempre bravios e cruéis; outros leões, guardam certa aparência de generosidade; outros, como ursos, são ávidos e grosseiros; outros, como lobos, são raptores e impiedosos; outros, como raposas que vivem de sua indústria, têm por ofícios lograr.

Há pássaros que só se recomendam pela plumagem e pelas cores. Quantos papagaios não falam, sem cessar, e nunca ouvem o que dizem; quantas gralhas não se deixam amansar para melhor furtar; quantas espécies de animais pacíficos e tranquilos não servem só de comida aos outros animais!

Há gatos, sempre à espreita, maliciosos e infiéis, que têm a pata de veludo; há aranhas, moscas, pulgas e percevejos sempre incômodos e insuportáveis; há sapos que só dão pavor e veneno; há corujas que temem a luz; quantos zangões errantes e preguiçosos que procuram se estabelecer às expensas das abelhas! Quantos crocodilos que fingem derramar lágrimas para devorar quem com eles se comove! E quantos animais subjugados porque ignoram sua força!"

Todas essas qualidades tem o homem, e pratica com os outros homens tudo o que praticam os animais aqui descritos.

*P.S. - Qualquer semelhança com os preços abusivos, em tudo, será mera coincidência!