Dizem que avós são pais em dobro ou, ainda, pais com açúcar. Mas, se tem uma máxima que quase sempre passa longe da verdade é a de que avós estragam os netos. Pelo contrário, estudos em várias partes do mundo têm demonstrado que, quando o elo entre eles e as crianças é forte, a relação é benéfica para saúde, bem-estar e desenvolvimento de ambos.
Durante a pandemia da Covid-19, além de estarem garantindo uma retaguarda financeira importante para socorrer filhos e netos, os avós - que comemoram o seu dia oficial nesta segunda-feira, 26 de julho - também têm dado respaldo nos cuidados com as crianças que ainda não retornaram às aulas presenciais, além de serem portos-seguros emocionais em um momento de pouca interação social dos pequenos.
Estudo elaborado pelo Instituto do Envelhecimento do Boston College, nos Estados Unidos, aponta que crianças que têm relacionamentos fortes com os avós são mais bondosas, generosas e menos ansiosas, além de terem maiores chances de ter bom desempenho escolar, autoestima e inteligência emocional. Mas não são apenas elas as beneficiadas. Segundo a psicóloga Salete Xavier São Bernardo, avós que interagem mais com os netos têm chances reduzidas de desenvolver doenças como depressão, Alzheimer e outros distúrbios cognitivos.
"Hoje, inclusive, existe o termo avosidade, que cria um elo entre a pediatria e a gerontologia. E o que temos visto é que a relação entre estas duas gerações, hoje, é bem melhor do que no passado, porque, agora, um ensina e ao mesmo tempo aprende com o outro", avalia ela, que também é coordenadora do Dedinho de Prosa, projeto que organiza rodas de conversa - atualmente virtuais - para promover autoestima e qualidade de vida de idosos em Bauru.
'GUARDIÕES'
Salete pontua que este convívio pode, de fato, ser enriquecedor, com laços estabelecidos de forma mais horizontal, ou seja, com o afeto tomando mais espaço que a autoridade, embora a relação de respeito continue sendo preservada. Para os avós, é uma segunda oportunidade de participar na criação de crianças na família, mas, desta vez, de forma mais leve e tranquila, já que, além de ter mais tempo disponível, também são mais maduros e experientes.
Eles podem, ainda, reforçar a sensação de significado, identidade e finalidade, especialmente quando já deixaram de trabalhar. E, como 'guardiões' da história da família, ajudam os netos a entender e interpretar a história da família, além de ensiná-las a exercitar a compreensão, paciência e resiliência.
"Todo este contexto traz um ensinamento muito forte. É uma relação rodeada de emoção e afeto, em que os avós podem compartilhar ensinamentos que vão durar para a vida toda. Por isso, é comum as pessoas, já adultas, guardarem lembranças muito específicas dos avós, de cheiros à sensação do abraço", acrescenta a psicóloga.
Ainda de acordo com ela, principalmente quando os avós são responsáveis por cuidar dos netos por muitas horas, todos os dias, enquanto os pais das crianças trabalham, pode haver conflitos na forma de lidar com os pequenos. Porém, com diálogo e empatia, as divergências podem ser resolvidas.
"A vantagem é que a relação de confiança tende a ser forte, porque há uma forma de educar que já é conhecida", afirma. Já para os netos que moram longe dos avós, Salete recomenda a realização, com maior frequência, das chamadas de vídeo tão popularizadas durante a pandemia. "É uma forma de matar a saudade e atender essa necessidade de contato", completa.