08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Pluma ao vento, o modelo

Roberto Mateus
| Tempo de leitura: 2 min

Pede-me uma leitora uma "pluma" em que trace o perfil do que considero um grande homem e o faz assim com ares de quem deseja um exemplo. Mas eu lhe respondo, não com um grande homem, mas com um homem modelo. Sim. Homem modelo e não grande homem, pelo simples motivo de, entre os mais badalados, nem sempre se encontrar um que sirva de exemplo. Não se assuste, pois, ao ver que meu homem não é nenhum Lincoln ou Churchill, nem mesmo qualquer dos guias espirituais que um dia abalaram o mundo.

Conheço um homem modelo. Digo mais, tenho a felicidade de contá-lo como amigo. É pobre. Pobre mesmo. Sapateiro, ou menos que isso, remendão. Passou a vida sentado diante do seu banquinho repondo meias solas, consertando saltos de sapatos, batendo sola o dia inteiro. Nunca teve uma palavra de queixa ou qualquer expressão de fadiga. Nunca se mostrou amargo ou fugidio.

Dia após dia, ano após ano, sem interromper o trabalho, manteve com os amigos que sempre o procuraram um papo gostoso, atraente mesmo, sem uma gota de veneno. Em torno dele, nas suas cadeiras pobres e nas suas banquetas sem verniz, formaram-se e cultivaram-se longas e sólidas amizades. Martelando sola criou seus cinco filhos e os fez professores ou agrônomos e talvez tenha sido essa a sua maior felicidade.

Só teve uma distração. Uma vez por ano deixava o banco por uns poucos dias e se afundava no mato com dois amigos para caçar. Isso durou dezenas de anos, mas nos últimos tempos até isso deixou, pois os companheiros deixaram este mundo. Agora, viúvo, com os filhos criados e ausentes, só lhe resta uma partida de bocce de vez em quando.

Como caçador era um campeão no pio. Não havia caça que não lhe respondesse à chamada. E houve um dia em que eu tive o capricho e o prazer de gravar sua arte numa fita de meia hora. Nela se encontram, com perfeição, desde o piado solene do macuco até o irritante cri-cri do grilo.

A imitação integral dos homens que a História consagrou nem sempre tornaria a humanidade mais feliz. Apesar da sua grandeza e da sua imortalidade, podem muitos deles revelar certos aspectos negativos ou antipáticos. O meu amigo batedor de sola, esse, ao contrário, mereceria que o imitassem. Ou melhor, seria uma benção que todos o fizessem.

O nome? Por que dizê-lo? Esta "pluma" não foi escrita para louvar um homem bom, mas para, em resposta à leitora, sugerir-lhe que imagine quanto seria mais feliz a humanidade se todas as criaturas vivessem como viveu o meu sapateiro remendão.