08 de julho de 2026
Articulistas

Pai

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 3 min

Há um resíduo de dia dos pais, preso no ponteiro maior do relógio, que fica assistindo ao domingo chegar. Está desde a entrada da casa sentimento de tempo transcorrido. No sol que desidrata a geometria do portão, na chave desgastada do trinco, na ferrugem do cadeado. Samambaias, roseiras desfolham conversas sentadas ao som de músicas. O quintal, fiel aos gestos de infância, guarda pega-pega, esconde-esconde, bicicleta, balde, bola, varal como trave de gol e uma trinca no chão, útil aos riscos com giz.

Na casa do pai, piada é riso largado; as vezes um silêncio comportado, Shhhhhh... hora do noticiário; nessas horas o bom senso recomenda obedecer; o vaso, privado de descarga, o aparelho de som, mudo. Por isso, a mudez do olhar do pai bastar por autoridade; penetrante, escapa na respiração do momento um silvar surdo pelo nariz; a brabeza tão logo se escuta despedindo-se com o silêncio do perdão. Pai exige verdades; para um pai, honra, lealdade e comprometimento dispensam gradação.

Na casa do pai são também quietas as mãos que repousam sobre a mesa guardada de refeição; da boca satisfeita, dedos varrem restos de pão demitidos sobre a toalha; nas costas da cadeira, um avental descansa sua utilidade; pão com manteiga, café com bolo de fubá prolongam a conversa da tarde: jogo do Palmeiras, os novos casos de corrupção, os impostos, a exigência das obrigações da semana cheia de gente apressada passando, a violência que desassossega o sono. Todo encontro com um pai é uma busca, um aprendizado definitivo; sua fala pode ser monossilábica, verborrágica; o olhar ora contemplativo de exclamação, ora inquieto a um acontecimento interrogativo, tudo nele é lição de sabedoria.

No quarto, a cama no segredo de quem ama; porta-retratos: filhos, um pai ora sisudo, ora sorridente derramando vida e uma bíblia com fé em superlativos; é preciso agradecer, orar pelos filhos, pela família, amém. No armário, a simetria dos cabides de quem deposita roupas cerzidas de afeto; gravatas, meias a pés que já andaram muito nesta vida por alguém. Na casa do pai há de se entender, por alguns momentos, a filosofia dos sapatos; o esquerdo insiste em fugir do direito; sapatos velhos que não se misturam com os mais novos; chuteira expulsa do armário; uma bota, militar de alta, acha que bota espanto; há casos - curioso isto - de um chinelo velho que disse ao outro para que seguisse em frente, que ele ficaria por ali, por não aguentar mais; coisa assim de quem vê filmes de mocinho e bandido acompanhado do pai.

Felizes dias ao pai que acorda ciente de que a manhã necessita de um adjetivo e trata de procurá-lo na delicadeza dos lençóis, a fim de levar um pouco de maciez para o primeiro diálogo do dia. E nesse sopro de vida, os dias dos pais nos pertencem; de sua presença, a convivência amistosa de quem sabe amar sob a fita métrica do justo, da gratidão, tal qual a orquídea ao pedir à arvore espaço do seu tronco, paga-lhe em beleza desfolhável; de sua partida, a cicatriz de saber que existem pessoas que nascem só para depois ferirem a gente com sua ausência.

O autor é professor e autor de artigos didáticos, ficcionais da Língua Portuguesa