08 de julho de 2026
Articulistas

Os tijolos

Claudia Zogheib
| Tempo de leitura: 3 min

Muitas vezes, sofremos antecipadamente quando ao acordar pensamos em como será o nosso dia. Diante de tantos afazeres, medos internos, aflições, silenciamos! O dia começa, pegamos um café, olhamos o jornal! As notícias continuam lá, esperando o nosso olhar atento e introspectivo. O que de fato é real e faz sentido para nós? O que alimentamos por muitas vezes não sabermos como lidar com nossas angústias? Será mesmo que precisamos correr tanto? Do que estamos fugindo? Onde queremos chegar?

Embora continuemos correndo, a nossa noção de continuidade interna irá sempre esbarrar no desconhecido, naquilo que ainda não conhecemos de nós mesmos. Desde que nascemos, convivemos com esta parte desconhecida por nós. Sabemos muito pouco quem de fato somos, e, no entanto, são estes desconhecidos que determinam a maioria de nossas ações.

O que de fato queremos conhecer? Quais são as verdades que nos fariam sentido? Estamos há mais de um ano enfrentando uma vida diferente daquela que sempre fomos acostumados ... relutantes! Modificamos rotina, perdemos coisas, pessoas, convívios, etc. No entanto, conviver com uma nova rotina, muitas vezes adversa, parece nos convidar a olharmos mais para dentro de nós, para talvez valorizarmos também as perdas que tivemos, diante deste inesperado "mundo novo".

Talvez, diante de tantos medos, poderíamos estabelecer direções novas, pensar em como nosso mundo poderia se safar de tanta falta de olhar e afeto: de nós com nós mesmos, e diante do outro. Nas cartas de S. Freud à A. Einstein, eles já apontavam que o desejo à guerra faz parte do instinto destrutivo. Com isso, a forma de resolver esta questão, seria contrapor ao "Eu" antagonista, Eros, de maneira a neutralizar a sua força. O instinto de amor ajudaria a dar uma solução ao problema final da humanidade. Diante de tal proposta, a forma de resolvermos este impasse, seria uma construção lenta e digna, tijolo por tijolo de amor e humanidade.

Parece que o momento nos convida a não mais aceitarmos regras de desconstrução do eu, e o encontro com nossas fraquezas e inconstâncias, seria uma grande imersão de afeto para nós mesmos, um momento de franqueza interna. Caberia a nós, abrir espaço para tudo aquilo que muitas vezes é difícil enxergar: o eu, que também encontra o instinto de amor, da parceria, da construção, e que nos possibilita refletir em porque insistimos num mundo com tanta adversidade.

Talvez desde sempre estivemos diante de uma relação conturbada de amor x desamor, e aquilo que não conseguimos estabelecer até então, não tivesse passado pela nossa consciência e sim por nossos instintos destrutivos, e se não fossem as dificuldades que o momento nos impõe, continuaríamos cada um honrando a si próprio, e olhando pouco ao redor.

Se Freud e Einstein puderam trocar cartas em meados de 1932 pensando sobre a guerra, sobre o amor e o desamor, quem sabe diante deste mundo adverso podemos pensar em como vamos construir cada tijolo da nossa vida, e no quanto podemos repensar nossos afetos e o outro. E diante de nossos instintos, lutar pelo amor que também habita dentro de nós.

Não nos custa parar um pouco, não nos custa repensar e olhar um pouco para dentro de nós. Na verdade, o que custa é não olhar! Custa a falta de saúde mental, física, falta de vida interior, enfim, tudo o que nos distancia de nós mesmos. E como diz Fernando Pessoa: É tempo de travessia, e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado sempre à margem de nós mesmos.

Em tempo, este texto foi escrito ao som da música: "In Remembrance Of You", de Max Richter.

A autora é psicanalista pela USP/SP, psicóloga clínica, formada pela USC, responde pelas páginas @augurihumanamente e @cinemaeartenodiva