11 de julho de 2026
Articulistas

Pequeno dicionário canino de sociologia

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 3 min

Reconheçamos: de todos os benefícios que os animais domésticos proporcionam à qualidade de vida e bem-estar coletivo, cães ganham destaque. Combatem depressão, sedentarismo, aumentam imunidade, desenvolvem virtudes nas crianças, fortalecem relações familiares, além, é claro, de facilitarem na socialização; afinal, quem nunca engatou uma conversa, paquera pelo animal de estimação?

Na sociologia do dia a dia, o cachorro assume outro protagonismo. A vida insiste em ser um cão manco, faminto de língua áspera. Aumento dos remédios, cesta básica, carne, gás de cozinha, combustíveis, planos de saúde; e como se não bastasse, um fato avassalador: moradores de Cuiabá se aglomeraram em frente a um açougue para receber ossos de carne - antes separado para ração animal - tamanha fome. O estabelecimento repete a cena duas vezes por semana, tamanha fome. Do aumento dos alimentos, o arroz, de pacote de 5 kg, chega a custar R$40 em algumas regiões brasileiras. A vida anda osso.

Os atuais índices de desemprego exigem do brasileiro sensatez. Nem sempre abraçamos o emprego dos sonhos; por esse motivo, identificar as oportunidades é essencial. Ser gentil na convivência social, receptivo às solicitações profissionais, proativo aos desafios, comprometido com o bem-estar do próximo, estar em sintonia com as exigências do mercado; viver assim é farejar o tempo todo novas oportunidades para o crescimento e brilho do pelo.

À quem, por ventura, trabalha em mais de um serviço, aos pregos que têm mais de um martelo, ops, dono para se agachar, rolar na servidão e correr e pegar o graveto... resta, enfim, abanar o rabo como gratidão vertebrada aos que lhe recompensam pela ração diária salivada. Enquanto 19 milhões de brasileiros passam fome, um presidente realiza tiro de artilharia durante treinamento das Forças Armadas em Formosa (GO), num evento que mobilizou dois mil militares das três Forças, além de 150 meios, entre aeronaves, blindados e anfíbios, de artilharia e lançadores de mísseis e foguetes; 1.500 toneladas de equipamento transportadas do Rio de Janeiro à Brasília. Num momento em que inflação acumula alta de 9% em 12 meses, que 14,8 milhões buscam vaga no mercado de trabalho, num recorde de desemprego; numa época em que se chora a morte pelos mais de 570 mil mortos pela Covid-19, um presidente ataca o uso de máscaras defendendo remédios inúteis contra a doença. Assim é cão arredio, ciente da mordida resta a ferida; de rabo recolhido fareja próxima mão estendida.

Às bocas virgens, línguas átonas que vivem em estado de rima, aos que bebem leite morno, aos dedos que se conformaram com a perda dos anéis, aos que discordam do brejo na cruz; aos cumpridores do relógio de ponto; aos que ouvem em sístole e devolvem na diástole; aos que - entra ano, sai ano - acreditam nos mesmos planos; aos que convivem atenciosamente, cordialmente, gentilmente - puta que pariu das gentes - coleira com focinheira.

Vida em estado de cão dialoga com os rabos; é sujeito manso de sua hesitação acuada; objeto acostumado à subordinação. Cães são fiéis a obediências; contentam-se com migalhas jogadas ao chão; abanam sins ao seu dono.

O autor é professor e autor de artigos didáticos e ficcionais da Língua Portuguesa.