Não é exagero afirmar que o lar do biólogo Astélio Ferreira de Moura, de 57 anos, conta com 710 animais de 170 espécies diferentes, das mais comuns às mais exóticas. E se a referência à casa em questão lhe remete ao Zoológico de Bauru, não é por acaso. Há 34 anos, o bauruense trabalha no local e a experiência na lida com os bichos fez dele o diretor do Zoo. Desde janeiro de 2019, ele é responsável pela condução do trabalho dos profissionais atuantes no espaço, que completa 41 anos nesta semana.
Apaixonado por Bauru e pelo Corinthians, Astélio pretende se aposentar em setembro e, na sequência, mudar-se para Portugal, onde vai morar com a esposa Erika Daniela Barbosa de Moura, de 47 anos. Porém, garante que voltará para visitar o Zoo e seus quatro filhos, Fernanda, Michel, Richard e Eduardo, e seus três netos. Em um bate-papo com o JC, que teve gosto de despedida, o biólogo detalhou os melhores momentos de sua carreira e, ao mesmo tempo, narrou a trajetória do Zoo, já que as duas histórias estão entrelaçadas. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Jornal da Cidade - Quando chegou ao Zoológico?
Astélio Ferreira - Em 1 de abril de 1987, com 23 anos, para cuidar do aquário que estava prestes a ser inaugurado. Participei do processo de limpeza, ajudei a colocar os peixes e, assim, fui pegando carinho pelo que eu estava fazendo, ganhando experiência com os outros tratadores. Antes de lá, não ficava mais de um ano em um trabalho, porque não gostava.
JC - E o que o fez ficar no Zoo?
Astélio - Ah, não tem preço cuidar de animais, vê-los crescendo, se recuperando de um atropelamento ou se reintegrando à natureza. Nunca esqueço quando, logo no começo, resgatamos uma filhote de lobo que perdeu a mãe durante uma queimada de cana. Ela cresceu e virou uma bela de uma loba, chamada Paty, e era de extremo carinho com a gente. Enfim, essa e muitas outras razões me fizeram ficar.
JC - Ficou e até assumiu a direção...
Astélio - O Luiz Pires, que era o diretor do Zoo na época, foi gostando do meu trabalho e, depois de dois anos, fui promovido a encarregado. Desde então, a gente desenvolveu a rotina do Zoológico juntos. Adquiri uma grande experiência em manejo de animais, em tomar decisões pautadas no trabalho do dia a dia. Em janeiro de 2019, ele se aposentou e me indicou para substituí-lo.
JC - E você estudou Biologia após entrar no Zoo?
Astélio - Meus amigos me incentivaram muito a estudar. Escolhi biologia e sou formado há 10 anos, pela Universidade de Santos.
JC - O legal é que não foi a biologia que o levou ao Zoo, mas sim o Zoo que o levou à biologia...
Astélio - Sim (risos). Assim como muitas crianças, que fazem o curso de férias no Zoo e depois decidem cursar veterinária ou biologia.
JC - Qual a sensação de estar na direção de um local tão importante?
Astélio - É incalculável. Jamais imaginei que estaria neste posto de uma instituição tão reconhecida. O crescimento foi natural e me sinto muito orgulhoso, graças ao reconhecimento do meu diretor.
JC - E antes já tinha identificação com animais?
Astélio - Não. Sequer tinha a mentalidade do que era preservar a natureza. No Zoo, abriu-se um novo horizonte na minha mente.
JC - O parque vai completar 41 anos e você tem 34 de casa. Dá para dizer que dedicou sua vida ao Zoo?
Astélio - Posso lhe garantir isso. Eu, Luiz Pires, Maria Emília e o falecido Carioca nos dedicamos muito. Nas madrugadas, resgatava animais atropelados. A onça que apareceu na Nações Unidas, por exemplo, lutamos muito para tirá-la de cima da árvore.
JC - E o que viu mudar nesses 34 anos?
Astélio - Foram inúmeras conquistas. Quando entrei, o Zoo já estava tendo uma conquista maravilhosa, que era a inauguração do aquário. Inclusive, nós não mudamos a estrutura dele até hoje porque foi o primeiro aquário em zoológicos do Brasil. Depois, veio o pinguim, a casa de répteis, o refeitório dos funcionários, o asfalto...
JC - Tem algum animal que é mais apegado?
Astélio - Gosto muito dos tigres (risos). E naturalmente gosto muito de todos os animais. Também tenho três gatos pelos quais sou apaixonado.
JC - E o que gosta de fazer quando não está no Zoo?
Astélio - Gosto de jogar bola, apesar de a idade não permitir muito (risos). Adoro jogar truco e sempre estou com amigos. E, claro, acompanhar o Corinthians.
JC - E pensa em se aposentar?
Astélio - Sim. Estou na reta final. Vou me afastar em setembro e me mudar para Portugal com minha esposa, que já está morando fora do Brasil há alguns anos.
JC - Nossa… E como está o coração?
Astélio - Sinto que estou casando e saindo da casa da minha mãe (risos). Só que um pouco pior, porque vou estar longe. O Zoo é meu lar. Vou sentir muita saudade daqui e de Bauru, cidade que amo. É difícil, pois sou muito ligado a tudo isso, mas chega uma hora que precisamos passar o canudo. Essa continuidade é importante. Enfim, sou uma pessoa realizada e tenho a certeza do dever cumprido.