O sonho dos jovens em tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) imediatamente após completar a maioridade vem sendo adiado ou, até mesmo, deixado de lado por uma parcela significativa desse público em Bauru. Um levantamento feito pelo Detran.SP revela que, em junho deste ano, 43.857 pessoas entre 18 e 30 anos obtiveram a sua licença para dirigir, uma queda de 14% em relação ao mesmo período de 2015, quando 50.359 jovens conseguiram o documento.
A redução, inclusive, foi maior do que a registrada em todo o Estado de São Paulo, que girou em torno de 10%, conforme revela a assessoria de comunicação do Detran.SP. No território paulista, ainda segundo o órgão, o número de jovens habilitados diminuiu de 4,872 milhões em junho de 2015 para 4,356 milhões no mesmo período deste ano.
Diretor-presidente do Detran.SP, Neto Mascellani ressalta que "fatores culturais e econômicos influenciam o perfil dos motoristas com o passar dos anos. Hoje, nós temos uma geração que se preocupa mais com a questão ambiental e a facilidade oferecida pelos aplicativos de transporte".
Já de acordo com o coordenador nacional de Fiscalização de Trânsito da Iniciativa Bloomberg, André Correia, nos municípios grandes e médios do Interior Paulista, os fatores que influenciam o menor interesse dos jovens em dirigir são semelhantes aos das capitais. "Porém, cada uma das cidades apresenta características econômicas e sociais próprias que, em alguns casos, podem aumentar esses percentuais", complementa.
Fatores culturais, econômicos e sociais explicariam esse declínio do interesse dos jovens por tirar a habilitação, optando, muitas vezes, pelo uso de aplicativos, do transporte coletivo ou de outros veículos, como a bicicleta.
SUSTENTABILIDADE
José Montal, diretor da Associação Brasileira de Medicina do Trabalho (Abramet), afirma que alterações culturais e comportamentais tiraram do automóvel o apelo que o tornou objeto do desejo de várias gerações de jovens. Segundo ele, o conceito que esse público passou a ter do transporte leva mais em conta a questão da mobilidade, muitas vezes, privilegiando outros modais mais saudáveis, como a bicicleta e até o pedestrianismo.
Para Márcia Menezes, diretora-executiva da Federação Nacional das Cooperativas de Trabalho dos Médicos e Psicólogos Peritos de Trânsito (Fenactran), vários fatores explicam o interesse decrescente dos jovens em se habilitar, entre eles, os altos custos de um veículo e da sua manutenção. "Mudou, ainda, a representação social sobre os veículos, vistos como essenciais pelos mais velhos, acostumados a encará-los como um símbolo de independência, conquista e poder", observa.
DESINTERESSE
A auxiliar administrativa Aléxia Vitória Félix, de 22 anos, que vive em Bauru, não possui habilitação e não se interessa em obter o documento. "Eu praticamente moro com o meu namorado, que dirige e me leva para onde preciso. Quando ele não pode, chamo um motorista de aplicativo", narra a jovem, acrescentando que os altos custos de um veículo e da sua manutenção a impossibilitaria de morar sozinha. "Eu teria de abrir mão de pagar o aluguel, mobiliar o apartamento e viver bem com o meu salário", constata.
Garçonete e estudante de Jornalismo da Unesp Bauru, Carolina Capucho, de 20 anos, também não pensa em tirar a CNH. "Eu uso bastante o transporte público e, às vezes, apelo aos motoristas de aplicativo", justifica a jovem, segundo a qual esses meios alternativos são mais vantajosos para o seu bolso do que um veículo propriamente dito.