08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Empurrando com a barriga

Ivan Garcia Goffi
| Tempo de leitura: 2 min

Escutando a fala da vereadora Chiara numa rádio local, não pude deixar me sentir mal com o posicionamento tão habitual dos legisladores desse país, sinônimo de letargia, lentidão, omissão. Vulgarmente falando, é o velho "empurrar com a barriga". Refiro-me ao fato de a vereadora ter defendido que "não se deve fazer alterações eleitorais na atualidade porque o assunto seria contaminado pela polarização da política nacional". Por que não, vereadora?

Para explicar, reporto-me ao ano 2007, quando o pequeno João Hélio (6 anos) foi lixado no asfalto por quilômetros, até a morte, porque ficou pendurado e preso ao cinto de segurança para fora do carro, quando sua mãe tentou tirá-lo do veículo durante um roubo e o bandido não esperou, saindo em arrancada. O motorista era um menor de idade, desses que gostamos de chamar de "infrator". O mesmo tipo de menor que, rotineiramente, mata, estupra, tortura, agride, rouba, trafica, anda armado, mas a lei e a sociedade se recusam de chamá-los de criminosos.

Na época, um deputado federal bradou - a exemplo de Chiara - que não se poderia discutir mudanças no Estatuto da Criança e Adolescente "contaminado pelo calor da discussão"... e, a exemplo também de Chiara, disse que "era preciso debater com mais profundidade o assunto".

De lá para cá, foram dezenas de João mortos por menores, centenas de brasileiros vitimados por menores. E o tema nunca foi discutido.

Vamos fazer o seguinte: se um dia algum parlamentar for diagnosticado com câncer de pulmão, não faça o tratamento. Discuta as causas, faça fórum de debates com médicos e cientistas, debata os motivos de ter fumado tanto tempo, entenda os meandros do comércio do fumo e, no estertor da insensatez, até a questão social das famílias que dependem da produção do tabaco. Para que tratar o câncer no calor do desespero pela doença?

A verdade é que somos covardes. O parlamento nacional é covarde. Enquanto nos EUA um assunto novo vira lei em semanas, aqui em décadas o tema sequer sai das "comissões" ou entra em pautas.

Temos medo de enfrentar problemas, razão pela qual "empurrar com a barriga" acaba sendo a solução mais oportuna para os legisladores. Triste sina de uma nação.