08 de julho de 2026
Ser

A vida depois da 2ª dose contra a Covid

Ana Lourenço
| Tempo de leitura: 3 min

A caminho da minha primeira dose da vacina contra a Covid-19 no começo deste mês, sonhava com todos os planos de uma vida imunizada: festas, abraços, mudanças, além de tentar controlar a euforia de finalmente sentir a agulha no braço. As chances de quem me lê agora ter compartilhado do mesmo sentimento são grandes. E, se por acaso você decidiu manifestar isso online, provavelmente contribuiu para o estudo da Orbit Data Science (http://bit.ly/posvacina), uma startup que analisa qualitativamente debates e tendências das redes sociais e que classificou quase 2 mil comentários relacionados ao pós-vacina entre fevereiro de 2020 e junho deste ano.

A ideia do que fazer uma vez que for vacinado está intrinsecamente ligada à experiência vivida durante a pandemia. Conforme ela mudou, os planos mudaram junto. Por isso, o estudo é dividido em quatro fases. No início da pandemia, o maior desejo é "reencontrar pessoas" (13,63% do total), mas, com o início dos testes da vacina, a principal categoria passa a ser "frequentar lugares" (15,34%). "Entendendo o contexto, fica claro porque o pessoal falava tanto em reencontrar familiares e porque eles deixaram de falar. Houve uma flexibilização e eles conseguiram encontrar essas pessoas entre as ondas", explica Caio Simi, CEO da Orbit Data Science.

Foi o caso da administradora Marina Cury, 30 anos. "Tive uma quarentena antes da quarentena. Em junho de 2019, descobri um câncer de mama e o tratamento durou até fevereiro de 2020. Logo entramos em reclusão", conta. Enquanto ela morava com os pais, o isolamento foi seguido à risca. "Quando tomei a primeira dose, no começo de junho, comecei a sair para jantar e encontrar amigos em casa", diz ela, que pretende, após a segunda dose, voltar a bares e fazer uma celebração de casa nova para poucos amigos vacinados.

A terceira fase do estudo, na época do início da vacinação pelo mundo, passa a ser relacionada com a expectativa de chorar e se emocionar quando ela chegar no Brasil (13,57%). Se antes os planos eram longínquos, agora eles começam a parecer palpáveis. "É nesse lugar que as pessoas estão depositando toda atenção e toda angústia que sentiram durante o período de pré-vacinação, então elas estão falando que vão se vacinar e vão chorar, vão se vacinar e criar memórias: queimar as máscaras, enquadrar o cartão de vacinação. É um símbolo de vitória, esperança, que talvez tenha uma carga mais emocional e profunda do que as outras categorias", diz Fernando Hargreaves, sócio da Orbit e coordenador da pesquisa.

O ator e influenciador digital Murilo Carvalho, 27 anos, sabe bem desse sentimento. De tão ansioso para tomar a primeira dose, ele transformou o dia da vacinação em um "musical" em suas redes. "Como sou apaixonado pela Disney, veio essa ideia de Frozen, que tem uma música sobre liberdade", diz ele, que ficou oito meses "sem colocar o pé para fora de casa". O resultado foi mais de 1 milhão de visualizações no TikTok e 65 mil no Instagram. "Você influencia as pessoas a se vacinarem também."

Depois da segunda dose, Murilo espera ver os amigos. "Fizemos um contrato com todos os planos pós-pandemia para cumprirmos: comemoração de formaturas, aniversários. Nem precisamos de festa ou um bar. Só de encontrá-los ao vivo, ao invés de telas, vai ser incrível."

Já na última fase, quando a aplicação alcança os mais jovens - e mais atuantes nas redes -, o sentimento de medo dá lugar a uma forte sensação de carpe diem (aproveitar o momento). E, assim, o desejo passa a ser um só: extravasar. Simultaneamente, é nesse período que a categoria "continuarei tomando as medidas de segurança" mais cresce.