09 de julho de 2026
Articulistas

Trauma de confessionário

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Trago da infância um trauma. Não sei se de padre ou de confessionário. Bem provável que seja dos dois. Pudera, fui menino de cidade pequena, de única igreja e de um padre só. Pertencendo à família religiosa, participava do coral infantil, não perdia catecismo, comungava regularmente e me encontrava com o Pai todos os dias, antes de comer e de dormir. Mas odiava encontrar o padre Libânio, toda semana, no seu caixote de confissão. Pra que confessar? Pra repetir o meu pecado vergonhoso que ele conhecia tão bem quanto eu? O padre sabia de tudo nos mínimos detalhes: com quem, onde, quando, como e quantas vezes. Eu era bom filho, bom aluno e tinha um pecado só: como todo moleque, eu tocava (como posso dizer?) essa coisa proibida com o punho do pecado. Deu pra entender, né? Até hoje, não consigo dizer o nome inteiro dessa minha vergonha. Quando pela primeira vez confessei ao padre que eu tocava..., o confessionário tremeu: Cala essa boca suja, menino! Não me repita nunca mais expressão tão feia! Não me diga mais que toca ou que bate..., diga, apenas, que "se acaricia".

Fale assim: eu me acariciei no banheiro, no quarto, atrás da bananeira, mas não toque nem bata nada, entendeu? Achei o verbo "acariciar" estranho e falso. Era manso demais para traduzir a fúria do meu prazer. Mas quem mandava era o padre, sem alternativa passei a me acariciar.

Toda semana, coitado de mim, era obrigado a me ajoelhar e a repetir, no confessionário, a mesma vergonha ao Padre Libânio. Eu não conseguia entender por que ele exigia narrativa tão fatiada. Em quem eu tinha pensado? Por quê? Onde? Quantas vezes eu tinha me acariciado? Não bastava contar o crime, o padre tinha sede de detalhes.

Nunca me esquecerei do dia em que a cidade explodiu. Escândalo na sacristia. O coroinha pegou o padre Libânio em cima da dona Carmela, ajudante de altar, recolhedora do dízimo e auxiliar da administração financeira da igreja. Era mais do que tudo isso, mas ninguém sabia: a secreta amante do padre.

O bispo horrorizado cuidou logo de transferir o padre Libânio para uma paróquia em outro estado. E para o lugar dele, trouxe o padre Arcanjo, um sacerdote bem velhinho que pra mim estava agendado, não duraria. Só hoje sei que, não podendo transferir a dona Carmela, o ato do bispo foi proverbial.

Foi um duro golpe na minha religiosidade. Então, era tudo falso? Eu que não pegava ninguém e que ficava só na mão, levava esporro semanal e tinha que rezar dezenas de Pai Nosso. Enquanto isso o sem-vergonha do padre Libânio fazia, na sacristia, muito mais do que em mim condenava. Aliás, devo confessar que a dona Carmela, beata gostosona, frequentava também, além da sacristia, a minha imaginação. Por ela, perdi a conta de quantas vezes me acariciei.

Decepcionado, larguei a igreja, o coro infantil e o confessionário. Só não larguei de Deus, que Nele continuo acreditando. E sem peso algum na consciência, larguei de censurar a minha mão que ganhou a liberdade merecida. Depois, já adulto, reencontrei-me com a religiosidade perdida. Voltei à igreja com outros olhos e com as mesmas mãos. Finalmente, aprendi o quanto a carne é fraca e como se tortura por ela o bicho homem. Fui mais longe: perdoei o padre Libânio e a beata Carmela também.

Que Deus os tenha!

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.