08 de julho de 2026
Cultura

As várias fases e faces de Rita Lee

Estadão Conteúdo
| Tempo de leitura: 4 min

Qual a maneira de um fã chegar o mais próximo possível do seu ídolo? Tentar uma vaga na fila de camarim? Comprar um ingresso no gargarejo? Segui-lo em hotéis? Colecionar tudo o que sai dele na mídia? Todas essas opções são válidas. Mas e quando o admirado já se aposentou dos palcos?

No caso de Rita Lee, que fez seu último show em 2012, a solução é correr para a megaexposição Samsung Rock Exhibition Rita Lee, em cartaz no MIS, em São Paulo. Nela - e não é à toa que logo no início há um disco voador pairando sobre a cabeça dos visitantes - é possível ser teletransportado para o universo único e criativo da cantora.

Realizado pela Dançar Marketing, mesma empresa que trouxe ao Brasil as exposições de Jimi Hendrix (2015) e Nirvana (2017), e com curadoria de João Lee, filho do meio de Rita e Roberto de Carvalho, e direção artística do jornalista Guilherme Samora, o evento vinha sendo planejado e negociado desde 2018.

Organizada em 18 áreas temáticas, a exposição evita a formalidade de uma linha do tempo certinha demais e, de uma maneira lúdica, faz com que a própria Rita conduza os visitantes por sua história. Uma das maneiras de fazer parte desse universo é acessar os QR codes indicados na sala e ouvir a própria Rita lembrando sua carreira.

A outra, original, que se torna o grande trunfo da mostra, se dá pelos 42 manequins espalhados pelos dois andares do salão principal do MIS. Eles vestem figurinos que Rita usou desde os tempos dos Mutantes. Há, por exemplo, o vestido que a cantora usou na apresentação dos Mutantes no Festival Internacional da Canção - a foto desse momento estampa a capa do segundo álbum do grupo, de 1969. A peça foi emprestada pela atriz Leila Diniz (1945-1972), que tinha usado na novela O Sheik de Agadir. Rita jamais devolveu.

Outra peça é o figurino completo que Rita vestiu para fazer a foto de capa do álbum Fruto Proibido, de 1975, um dos mais celebrados de sua carreira e no qual ela, ao lado do grupo Tutti Frutti, lançou sucessos como Ovelha Negra e Agora Só Falta Você. A imagem é reconstruída em 3D, inclusive com os instrumentos originais utilizados no cenário da foto.

Um dos itens mais pedidos pelos fãs, as botas prateadas de plataforma Biba têm lugar de destaque. Elas foram furtadas por Rita da loja da estilista Barbara Hulanicki, em Londres, em 1973. Anos depois, a designer polonesa passou um tempo no Brasil. Rita a procurou e confessou o crime. No lugar de uma bronca, ganhou os figurinos do show Babilônia. Eles ocupam uma sala toda cor-de-rosa da mostra.

É incrível notar como Rita preservou esse e muitos outros figurinos, instrumentos e objetos. "Ela é acumuladora, isso é fato. Mas também há o carinho como tudo isso foi feito ao longo dos anos. Tudo sempre foi pensado, desenhado por ela. Para fazer um trabalho, um show, ela criava sempre um storytelling", explica João Lee.

Os manequins foram desenvolvidos especialmente para a mostra. Não havia no mercado peças disponíveis que vestissem de maneira adequada as roupas da cantora. E mais: eles têm a cara, o cabelo e as expressões de Rita nas diversas fases de sua vida. Os rostos foram desenhados pela cenógrafa Clívia Cohen.

Tudo isso foi possível graças a um velho conhecido da artista, o cenógrafo e carnavalesco Chico Spinosa. O primeiro trabalho que eles fizeram juntos foi em 1982, na TV Globo. Spinosa criou para Rita o cenário do especial que ficou conhecido como O Circo. Os adereços estão reproduzidos na exposição. Junto deles, o figurino de gata que Rita usava para cantar Eu e Meu Gato e o corpete com seios postiços com o qual ela soltava a voz em Cor de Rosa Choque. Originais, claro.

Samora conta que o trabalho de Spinosa foi feito de forma carinhosa e artesanal. "Ele tem cadernos em que anota tudo. Tinha páginas com pedaços de cabelo das perucas, o tom de pele de cada rosto", diz. Até as estrelas prateadas que decoram uma das paredes foram feitas à mão.

As perucas foram cortadas por duas cabeleireiras durante quatro dias de trabalho. Elas mostram a Rita loira da fase Mutantes, o vermelho intenso de quando ela se consagrou como a roqueira nacional, o vermelho mais brando que usou por muito tempo até chegar às madeixas brancas que ela ostenta há alguns anos. Esse tom cobre o manequim em que está a roupa que Rita exibiu em seu último evento público, em 2019, quando lançou o livro infantil Amiga Ursa. A roupa foi batizada por Rita como "Fada Vegana".

SERVIÇO

Samsung Rock Exhibition Rita Lee, em cartaz no MIS, em São Paulo (avenida Europa, 158, São Paulo, até 20 de novembro. De terça a domingo, das 10h às 18h. Ingressos custam R$ 50 - na bilheteria do museu e nas plataformas da Ingresso Rápido.