Abdulrazak Gurnah recebeu uma ligação cerca de 15 minutos antes de a Academia Sueca anunciar publicamente que ele era o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, e achou que era trote. Nascido na Tanzânia, em 1948, e refugiado no Reino Unido desde 1968, onde fez carreira como professor de literatura de inglês e literatura pós-colonial, o autor de dez romances, inéditos no Brasil, deu sua primeira entrevista enquanto assistia ao anúncio oficial. Ele falou ao repórter Adam Smith, do site da premiação, ainda sob o impacto da notícia. Confira trechos da conversa.
Como o senhor
recebeu a notícia?
Abdulrazak Gurnah - Eu achei que estavam pregando uma peça. Eu realmente pensei. Sabe, essas coisas geralmente ficam rondando por semanas antes, ou às vezes meses antes: quem são os concorrentes. Então, não estava no meu radar. Eu só pensava: quem será que vai ganhar dessa vez? Pedi para a pessoa me contar mais, e ele falava calmamente. Creio que no fim eu ainda estava pensando 'vou esperar até que eu veja ou ouça'.
O anúncio mencionava a maneira como o senhor lida com o 'destino dos refugiados' e o 'abismo entre culturas e continentes'. Obviamente, é um momento particular agora - estamos no meio de uma crise de refugiados.
O senhor pode dizer como vê as divisões entre as culturas? Existem muitas maneiras de caracterizar as coisas.
Abdulrazak Gurnah - Eu não vejo que essas divisões sejam permanentes ou de alguma forma intransponíveis, ou algo assim. As pessoas, é claro, estão se movendo em todo o mundo. Eu acho que esse fenômeno particular de pessoas da África vindo para a Europa é relativamente novo, mas é claro que o outro, de europeus fluindo para o mundo, não é nada novo. Vemos isso há séculos. Acho que a razão pela qual é tão difícil para a Europa, para muitas pessoas na Europa e para os estados europeus chegarem a um acordo sobre isso é, para encurtar a história, talvez uma espécie de avareza, como se não houvesse o suficiente para todos. Muitas dessas pessoas vêm por primeira necessidade, e, francamente, elas têm algo a dar. Não chegam de mãos vazias. Muitos são pessoas talentosas e com energia, e que têm algo a oferecer. Então, essa pode ser outra maneira de pensar sobre isso. Não estamos apenas recebendo as pessoas como se elas fossem pobres e insignificantes. Pense nisso como se estivéssemos socorrendo pessoas que estão precisando de ajuda, mas que também são pessoas que podem contribuir com algo.
Os cientistas tendem a descrever o trabalho deles como uma brincadeira, apenas como a alegria de explorar. É assim que você se sente quando escreve?
Abdulrazak Gurnah - Bem, sinto alegria quando eu termino! (risos). Mas, sim, muito disso é, obviamente, compulsivo, atraente e algo que os escritores continuam a fazer por décadas - e você não pode fazer isso se você odeia. É o prazer de fazer coisas, criar, acertar, mas também o prazer de transmitir, de dar prazer, apresentar um caso, persuadir, todos esses tipos de coisas.