10 de julho de 2026
Articulistas

Radiografia da Medicina no Brasil

Fabiano Neves
| Tempo de leitura: 2 min

No último dia 18 de outubro, comemoramos o Dia do Médico, Dia de São Lucas, autor do Terceiro Evangelho e do Ato dos Apóstolos. Entretanto, o ensino na Medicina brasileira tem muito pouco a comemorar na atualidade. O fim do ano se aproxima e novamente milhares de jovens estudantes brasileiros enfrentarão os processos seletivos para as mais de 350 escolas médicas em atividade em nossa Pátria.

A visão romântica da carreira ainda impera nesses jovens, idealizando o médico como um profissional bem sucedido, otimamente remunerado e laureado de glórias e títulos. Mal sabem eles o que os espera na vida profissional.

Sou médico formado há 23 anos. Prestei vestibular em 1992, numa época na qual o sistema da meritocracia era o mandante, ou seja, não havia cotas, reservas de vagas, nota de Enem, Sisu ou algo parecido. Simplesmente fazia-se a inscrição para a carreira pretendida e vencia aquele que melhor se classificava. Fui aprovado em quatro universidades públicas (USP-Ribeirão Preto, Unesp-Botucatu, Unicamp e Famema - Marília ), sem fazer "cursinho", escolhendo a primeira para cursar, onde fiz toda a graduação e residência médica.

Infelizmente, o nível do ensino médico no Brasil vem caindo de maneira inversamente proporcional à abertura desenfreada de escolas médicas, principalmente particulares, liberadas de maneira irresponsável e caótica por sucessivos governos federais (FHC/Lula/Dilma), os quais cederam a pressões de grupos educacionais que visam única e exclusivamente lucros exorbitantes.

A residência médica, período crucial na formação do jovem médico, foi relegada a um segundo plano, com número de vagas muito inferior à avalanche de recém formados despejados em um mercado de trabalho cada vez mais feroz, capitaneado por operadoras de saúde que a todo custo diminuem a remuneração médica a fim de majorar dividendos, oferecendo cada vez menos e cobrando cada vez mais.

Conforme estudo do Conselho Federal de Medicina (https://portal.cfm.org.br/noticias/94-das-escolas-medicas-brasileiras-nao-observam-criterios-para-oferecer-formacao-de-qualidade/), 92% das escolas médicas tupiniquins não observam critérios mínimos para formar médicos com qualidade. Outro ponto imperativo é o exame realizado pelos Conselhos Estaduais de Medicina ao final do curso, para o registro dos diplomas dos egressos destas faculdades. A prova é obrigatória para que o futuro doutor possa exercer a profissão, porém, não é excludente. Ou seja, mesmo se reprovado em tal exame, o indivíduo pode trabalhar normalmente como médico. Algo no mínimo questionável.

Soma-se a este quadro a baixíssima remuneração do SUS, com tabelas defasadas há décadas, estrutura precária e superlotada. Salvo raras exceções, exercer a Medicina com dignidade nessa Pátria é um exercício diário de muito afinco, paciência e labuta, para oferecer ao paciente um tratamento digno e eficaz. Que o Grande Arquiteto do Universo nos guie e ampare nessa empreitada.

O autor é médico oftalmologista em Bauru.