08 de julho de 2026
Nacional

Retirada de estímulos nos EUA pressiona Brasil a reduzir risco

Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

A economia brasileira, já prejudicada por cenários político e fiscal conturbados e por uma inflação de difícil controle, pode enfrentar um ambiente global mais desafiador a partir desta semana.

O Fomc (comitê de política monetária do Federal Reserve, o banco central americano) inicia nesta terça-feira (2) a sua reunião de dois dias e, na tarde desta quarta (3), deverá formalizar os termos da retirada gradual dos estímulos econômicos criados durante a pandemia de Covid-19.

Atualmente, o Fed (Federal Reserve) realiza compras mensais de US$ 120 bilhões (R$ 677 bilhões) em títulos hipotecários e do Tesouro americano para garantir liquidez ao mercado e, assim, amenizar os efeitos do esfriamento da atividade econômica em meio às restrições geradas pela crise sanitária.

Com a pandemia perdendo força devido à vacinação e os empregos se restabelecendo aos poucos, o Fed começará a secar essa fonte, também como forma de desacelerar a inflação que ganhou força nos últimos meses.

A expectativa é que a redução seja de aproximadamente US$ 20 bilhões (R$ 113 bilhões) por mês, o que extinguiria o programa em meados de 2022.

Esse afilamento do fluxo de recursos destinado ao mercado americano, que por lá é chamado de "tapering", tem entre seus efeitos colaterais a redução da disponibilidade global de dinheiro para investimentos.

Economias emergentes, como a brasileira, tendem a ser afetadas pela diminuição da liquidez mundial. Com menos dinheiro disponível, investidores passam a restringir os valores que destinam a aplicações consideradas mais arriscadas.

No Brasil, onde a instabilidade política e o temor sobre descontrole dos gastos públicos já vêm provocando a valorização da moeda americana frente ao real, o tapering poderá significar ainda mais pressão sobre o câmbio.

"Uma mudança na política monetária nos Estados Unidos levaria à saída de capital dos países emergentes. Logo, a desvalorização cambial pressionaria a inflação. O remédio seria o aumento maior da taxa de juros", avaliou a Suno, em boletim a investidores.

A alta dos juros brasileiros aumenta o prêmio para aplicações em títulos do país e, teoricamente, amenizaria a fuga exagerada de dólares. Mas essa não é uma tarefa simples, principalmente neste momento.

Acelerar ainda mais o avanço da taxa básica de juros brasileira (Selic) restringiria o crédito, dificultando ainda mais a geração de empregos e o crescimento econômico.

Além disso, o BC (Banco Central) brasileiro já iniciou esse processo para tentar conter a disparada da inflação local.

Na semana passada, a Selic subiu 1,5 ponto percentual, para 7,75% ano ano. Analistas consultados na pesquisa Focus do BC estimam que a taxa encerrará o ano em 9,25%.

O mercado, por sua vez, vem se antecipando ao cenário de maior pressão inflacionária com o aumento dos juros futuros de curto prazo. A taxa DI (Depósitos Interbancários) para janeiro de 2023, referência para a maioria dos contratos, subiu 4 pontos percentuais desde 31 de agosto, passando de 8,4% para 12,4% ao ano.

Esse contexto deixa pouco espaço para o BC acelerar a Selic para reagir à mudança nos EUA, mesmo porque, o prêmio pago pelo Brasil já é considerado suficientemente alto para competir com o exterior.

O Fomc ainda poderá comunicar nesta quarta se haverá ou não uma elevação dos juros básicos da economia americana, dando sequência assim à retirada completa dos estímulos adotados no curso da pandemia. Há uma remota chance de que a autoridade monetária anuncie a antecipação dessa medida para meados de 2022.

Enquanto o início da redução da compra de ativos é dado como certo pela maioria dos conselheiros do Fed, porém, ainda não há consenso sobre a necessidade de aumentar a taxa de juros no próximo ano, segundo publicou o Wall Street Journal neste domingo (31) com base em pronunciamentos de integrantes do Fomc nas últimas semanas.

Independentemente de apresentar ou não uma decisão sobre os juros, a reunião do Fomc é importante porque dela podem surgir declarações sobre como os conselheiros estão avaliando os dados recentes sobre a inflação, destacou o Bank of America, em relatório.

Dependendo do que for dito na tarde desta quarta, o mercado pode passar a precificar os juros americanos de longo prazo em patamares mais altos.

A expectativa de que investimentos em títulos públicos pagarão prêmios mais altos tem um efeito negativo sobre o preço que investidores estão dispostos a pagar pelas empresas listadas na Bolsa de Valores brasileira, por exemplo.

"Será muito relevante observar a reação da curva de juros longa, em especial a taxa de 10 anos, nos EUA após anúncio do tapering", comenta Daniel Miraglia, economista-chefe da Integral Group.

"Essa taxa talvez seja a taxa mais relevante para cálculos de valuation e custo de créditos longos, como, por exemplo, o crédito imobiliário, no mundo", diz.

O Brasil poderia reduzir significativamente a pressão sobre câmbio e Bolsa se conseguisse transmitir credibilidade quanto à sua política fiscal, avaliam analistas, independentemente da decisão do Fed.

"O exterior é importante, mas a dinâmica do mercado brasileiro tem respondido muito mais a vetores internos ", diz Miraglia.

O ambiente de negócios no Brasil vem se deteriorando rapidamente desde setembro, quando manifestações estimuladas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) anteciparam o debate eleitoral e intensificaram ameaças à democracia.

A crise ganhou mais força há duas semanas, quando o governo anunciou uma manobra para aumentar despesas com benefícios sociais em 2022 para além do teto de gastos.