09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

70 mil anos de história!

Cesar Augusto Teixeira de Carvalho - Prof. dr. aposentado do Dep. de Engenharia Civil Faculdade de Engenharia da Unesp - Bauru
| Tempo de leitura: 5 min

Recentemente, assisti a 'Amor e Anarquia', na Netflix, série ambientada na Suécia, onde um personagem idoso insinuava que todo mal do mundo se devia ao capitalismo, despertando nas pessoas o instinto de levar vantagem, de ambição e até ganância.

Achei curiosa a colocação, pois vemos estas tendências em jovens que nem sabem o que é capitalismo: uns furando fila, outros numa festa saindo de fininho sem pagar, e tem os que promovem um churrasco e repartem com os amigos custos bem maiores que realmente tiveram, e por aí vai.

Este comportamento se percebe até nas criancinhas que estão ainda engatinhando, e já presenciei briga entre elas com choros e tapinhas, quando foram disputar um brinquedo que ambas gostavam. Acho isto normal e faz parte do desabrochar da vida, e são defeitos que devemos começar nos preocupar, conforme evoluem, pra verificar se podem ou não se transformar em algo mais grave no futuro.

Entendendo capitalismo numa democracia, como apenas a liberdade para empreender, creio que ele tem até certa vantagem perante os defeitos humanos, pois nele, quando o empreendimento fracassa, o prejuízo é apenas do investidor e, quando há sucesso, o investidor tira seu lucro, mas acaba beneficiando outros num montante muito maior do que a si próprio. Veja o caso de Bill Gates, que na área de informática ganhou U$ 100 bilhões, mas propiciou ao resto do mundo benefícios (empregos, produtos,...) de pelo menos U$ 100 trilhões, ou 1.000 vezes mais do que ganhou. Este fato destrói as críticas ao capitalismo, pois se costuma afirmar que o empreendedor fica rico à custa dos pobres, o que não é verdade uma vez que a riqueza gerada é adicional e não tirada dos pobres. Pra entender melhor isto, vamos simular situações históricas ocorridas conforme se segue (de 1ª a 7ª), onde apenas não se pode considerar com exatidão os períodos de tempo indicados, uma vez que estes dependem de dados arqueológicos que muitas vezes se renovam.

1ª) Consideremos inicialmente que, cerca de 70 mil anos atrás, quando os primeiros humanos começaram migrar da África para outros lugares do mundo, um grupo de pessoas passou a perambular por ai, vivendo apenas dos alimentos da natureza, sendo todas evidentemente pobres.

2ª) Cerca de 50 mil anos atrás, ou depois de 20 mil anos que o mesmo grupo anterior começou a perambular por ai, ainda vivendo apenas dos alimentos da natureza, todas pessoas continuavam pobres. Mas a população do grupo aumentou bastante, e os alimentos da natureza começaram a diminuir.

3ª) Cerca de 30 mil anos atrás, ou depois de 40 mil anos que o mesmo grupo anterior começou a perambular por ai, ainda vivendo apenas dos alimentos da natureza, todas pessoas continuavam pobres. Mas a situação piorou muito mais, pois a população do grupo aumentou tremendamente, e os alimentos da natureza começaram a faltar.

4ª) Cerca de 10 mil anos atrás, ou depois de 60 mil anos do início da caminhada do grupo, uma pessoa teve a ideia de plantar trigo, dando início a agricultura. Mas ela sozinha pouco poderia fazer, e, como o empreendimento resolveria o problema da alimentação pra todos, o restante do grupo percebeu a necessidade de participar, pois seria também beneficiado. Esta pessoa tornou-se líder do grupo, sendo o "primeiro capitalista" do mundo ao usar sua liberdade para empreender e, num acordo coletivo, foram criados subgrupos para cuidar: do cultivo, da colheita, da distribuição, e também da segurança. O líder acabou se tornando um homem de prestígio, rico em poder, conhecimento e ponderação, e todos do grupo acabaram evoluindo junto.

5ª) Depois de um tempo, outra pessoa do grupo teve a ideia de montar uma padaria usando parte do trigo. Em conjunto com o líder, a ideia foi aprovada criando novo empreendimento, e a moeda de troca utilizada para atender as pessoas de fora que estavam de passagem, foi a barganha dos "pães" por "animais", que estavam começando a ser domesticados. Ao agregar animais, todos do grupo melhoraram ainda mais, inclusive na vestimenta.

6ª) O processo de evolução continuou e, como já era comum usar alguns animais também como alimento (galinhas, vacas, porcos,...), outra pessoa teve a ideia de montar um açougue como novo empreendimento. Sendo aprovado, ampliou-se os negócios do grupo, e a riqueza de cada pessoa cresceu mais ainda, conforme a importância e eficácia do seu trabalho.

7ª) Como alguns grupos não plantaram, aos poucos começaram as invasões e até guerras por alimentos, e este que plantou passou a ser taxado de ganancioso. O desentendimento se instalou, e no século 18 de nossa era, surgiu o movimento socialista defendendo princípios inovadores de "igualdade social". Pra isso, precisava-se acabar com o capitalismo, mas o grande entrave sempre foi: "como defender igualdade social se não havia uma igualdade de postura!?". O curioso é que os que estiveram no comando deste movimento socialista, nunca tinham produzido nada de prático na vida, e seu único feito foi elaborar discursos fantásticos de como a vida deveria ser, contrariando a história humana de 70 mil anos de comportamento livre e natural.

Felizmente, o balanço atual deste confronto é amplamente favorável ao livre capitalismo, onde no mundo temos pelo menos 40 Países equilibrados social e economicamente (exemplo: Dinamarca), e outro tanto caminhando no mesmo sentido (exemplo: Hungria). Por outro lado, temos apenas 5 países nos moldes socialista, mas nenhum nas condições de uma Dinamarca ou Hungria, com exceção da China, que fez uma travessura conceitual com a história, pois manteve a marca "socialismo", mandando às favas a "igualdade social".