Depois de cinco anos, Adelaide e Ducildo acabaram com o casamento. Na verdade, foi ela que, levantando de bola virada, disse: Chega! Não aguento mais! Ele chorou, se desculpou, teve tosse, crise hipertensiva, quase morreu. De nada valeu. Ducildo era apaixonado por Adelaide, que o detestava de morte.
Adelaide até reconhecia que o marido era um homem superior. Poeta, com dois livros publicados, e violoncelista na sinfônica da cidade. Falava baixo, atencioso e respeitoso. Nascera para amar a natureza, as gentes, os bichos. Todos os dias pela manhã, açucarava a vida dos beija-flores nos bebedouros espalhados pelo quintal. Adelaide achava que o problema dele era este: amava demais. Acordava cantando, cobria-a de beijos e de muitos bons-dias. Dizia e repetia que ela era a luz da vida dele. No começo, tudo bem, mas depois ela enjoou. Marido grudento demais. Homem tem que ser diferente, ela pensava, não pode ser melado. Tem que impor alguma distância, algum mistério, alfinetar ciúme e o medo doído, mas gostoso, de perdê-lo. Ducildo, era o contrário disso tudo: um cachorro na coleira, batendo o rabo sem parar, manso demais!
Casamento acabado, Adelaide quis a vida recomeçar. Mas tinha que ser com um homem que fosse o contrário do Ducildo. Encontrou o Salgado. Ducildo, por sua vez, não conseguindo esquecer a Adelaide, passou a procurar alguém que fosse o mais possível parecida com ela. Encontrou Adélia. Adelaide e Salgado. Ducildo e Adélia. Dois casais que, como tantos outros, prometeram tudo fazer na saúde e na doença, na pobreza e na riqueza, blá-blá-blá, blá-blá-blá... Adélia, no início, apaixonou-se pela poesia e pelo inspirado violoncelo do Ducildo. Que homem! Ducildo era um doce! Um manjar! Adelaide também se sentia encantada com o Salgado, que era o contrário do enjoativo Ducildo. Agora tinha um homem que mexia com ela, que a inquietava, que a fazia amar de um jeito gostoso com medo de perder. Ciúme, claro, quem ama tem. Salgado, homem másculo, decidia sem pedir opinião e não dava satisfações. Cuidado, Adelaide, um homem assim tão dono de si enlouquece qualquer mulher, diziam-lhe as amigas.
Não deu outra. Perfumado e arrumado, Salgado saía todas as noites, pondo pulga na calcinha da Adelaide. Voltava tarde, embriagado, cheirando a cerveja e a perfume barato. Adelaide chiou, reclamou, ameaçou... Adiantou? Não me enche o saco, nunca dei satisfações nem para minha santa mãezinha! Os desentendimentos continuaram. Um dia, Salgado acordou de bola virada: Chega! Não aguento mais! Sumiu da vida dela.
Adélia tinha a seus pés o Ducildo, que açucarava a vida dela e a dos beija-flores. O casamento navegava pelo mais doce dos mares. Mas aí, ela resolveu fazer a pergunta besta: Que graça existe em navegar em mar assim tão calmo? Queria um homem de verdade, que mexesse com ela e não, um pudim. Um dia, ela acordou de bola virada: Chega! Não aguento mais! Ducildo chorou, teve tosse, crise hipertensiva... Adélia escafedeu-se.
Ducildo, sabendo da separação da Adelaide, quis com ela reatar. Vai pastar, Ducildo! Nem vem, que pra você capim não tem! Inconformado, o poeta e violoncelista não se deu por vencido, queria, a qualquer custo, um grande amor. Encontrou Adelina, que tinha a cara da Adelaide e o jeitinho da Adélia.
Adelaide também não desistiu de encontrar o seu grande amor. Seu erro foi ter escolhido homens extremados: o Ducildo, doce demais; o Salgado, melhor nem falar. Faria última tentativa, fugiria das pontas, nem tanto açúcar nem tanto sal. Apostaria num homem do meio.
Uma terceira via, quem sabe?
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.