Em outubro passado, completei 73 anos. São 876 meses de vida e, em dias, 26.645. Não somos habituados a fazer essas contas, mas os números são consistentes. Célebre expressão "a vida passou tão rápida". É certo que 1/3 dela passamos dormindo (8.880 noites). Aprecio a letra da música com o refrão "... é preciso saber viver..." do grupo Titãs e também da letra "a ...vida é bonita, é bonita, é bonita..." do Gonzaguinha. Quantas verdades nelas contidas, mas ficamos apenas na beleza dos versos, mas nem refletimos sobre suas lições.
Nesses mais anos vividos, e dos poucos que ainda tenho, aposentado, faço um balanço de quanto trabalhei, dos momentos a ele dedicados, mas que foram tirados da observação do crescimento das 3 filhas, que a minha dedicada esposa Célia gerou, que hoje me presentearam com 7 netos. No meu núcleo familiar tem minha mãe completando 96 anos em novembro e meu sétimo neto, 3 anos em dezembro.
Quantas histórias os separam já vividas e a viver. Fico encantado de levá-lo à escola, onde vamos conversando, chegando vai diariamente no pequeno lago, contar quantos peixinhos vermelhos está vendo. Entra na sala e ali vive outras emoções que o fazem descobrir novas fronteiras da vida. Quanta inocência por ainda não ser contaminado pelos meios midiáticos que tanto fornecem boas notícias, quanto fake News, embaralhando nosso raciocínio. Minha mãe viveu momentos tensos de imigrante da argentina, com meus avós italianos que ali foram aportados, guerra mundial, revoluções, quebra de bolsa de valores que geraram consequências mundiais, momentos de tensão e crises durante alguns governos brasileiros, e ainda muitas doenças até dizimantes que sobreviveu. Uma frase que eu desconheço o autor, mas que ficou na memória é: "o importante não é o destino da viagem, e sim apreciar a paisagem da estrada que levará a esse destino". Escolho palavras de esperança para os netos, mas tenho dificuldade de achá-las para dizer à mamãe, pois pela sabedoria dos anos vividos, sabe muito bem, que são destituídas e vazias de futuro e que um abraço e um beijo são mais valiosos. A nossa viagem começa na fecundação, quando somos ainda 2 células (óvulo e espermatozoide) que seguem o processo incrível de diferenciação.
Vem o nascimento, embora a natureza nos expulsa para esse mundo exterior e daí vamos passando até a certeza que um dia voltaremos ao pó. São os extremos, entremeados pela vida que se viverá entre esses dois pontos (inicial e final). Vemos depoimentos de pessoas que encerrando suas jornadas, refletem sobre como usou seu tempo, bem ou mal , e que após a sabedoria da idade avançada, deixariam de "perder tempo" com pequenas questões e dariam maior valor aos momentos que deixaram escorregar entre os dedos e nem perceberam na época. Até o Filho de Deus, viveu a humanidade, em todas suas fases, para depois partir para a eternidade que religiosos e teólogos ensinam.
Um dia chegará, e não importa se deixaremos família, compromissos assumidos. Com essa pandemia, vimos muitos partirem e atônitos, inexoravelmente seguindo o caminho de todos nós. Aprendi no acidente fatal do Ayrton Senna, que embora com muitos anos mais novo que eu, viveu mais intensamente. O poder e a beleza exterior são passageiras. O corpo é somente o invólucro da alma, e essa não morre.
Viva a vida!
O autor é professor aposentado FOB-USP, M.E.C.E, e membro do Lions Centro de Bauru.