Apesar da turbulência em torno do Enem nos últimos dias, o exame está confirmado: as provas começam neste domingo (21) e continuam no próximo (28). Esta é a principal porta de entrada para o ensino superior público no País.
Ao todo, são 180 questões, divididas em quatro áreas, além da redação. No primeiro dia, os participantes enfrentam as questões de linguagens, ciências humanas e a redação. As provas de matemática e ciências da natureza ocorrem no domingo seguinte. Neste ano, o governo recebeu 3,1 milhões de inscrições.
O modelo matemático adotado pelo Enem, a chamada Teoria de Resposta ao Item (TRI), prevê itens calibrados de acordo com parâmetros de discriminação (se diferencia os candidatos de acordo com o nível de conhecimento naquele tema), dificuldade e probabilidade de acerto casual. A nota dos participantes depende não só do número de acertos, mas também entra no cálculo quais perguntas foram respondidas corretamente.
Acertar questões difíceis e errar fáceis é entendido pelo modelo como um possível chute, e há reflexo na nota final. A análise estatística feita pela Folha de S.Paulo, a partir da base de dados do Enem de 2009 a 2019, mostra, por exemplo, que candidatos que acertaram 22 das 45 questões de matemática no Enem 2019 tiveram notas bem diferentes de acordo com o perfil dos acertos. Um participante que conseguiu uma nota de 758,5 anotou corretamente mais itens entre os mais fáceis (19 das 22). Já outro candidato que, também com 22 acertos, foi melhor em itens mais difíceis teve nota inferior: 589,5 pontos.
Esse fenômeno é mais comum entre os candidatos com poucos acertos em cada prova. Até porque, entre aqueles com as maiores notas, é necessário maior número de acertos, o que abrange itens de dificuldades variadas. Pode haver, no entanto, impacto na concorrência para ingresso de cursos. Para garantir nota 700, a média de acertos é de 20 pontos, ainda como exemplo a prova de matemática de 2019. Mas quem acertou 16 fáceis teve a mesma nota de um candidato com 26 acertos entre as mais difíceis.
A título de comparação, uma vez que a nota de corte depende da média de todas as áreas da prova, uma nota de 700 pontos seria suficiente para superar as notas de corte de ingresso de cursos como o de história na Universidade Federal de Pelotas e enfermagem na Federal da Bahia.
Esse comportamento aparece em todos os anos e em todas as provas. As diferenças são mais expressivas, no entanto, nas provas de matemática. Os candidatos não recebem a informação sobre o nível de dificuldade da questão e essa variação de notas é motivo de angústia para quem faz as provas. A nota de quem erra só uma questão no Enem pode variar até 92 pontos, como também mostrou análise da Folha de S.Paulo no início do ano.
Não há erro nesse fenômeno, que segue o que é previsto pelo modelo matemático. Mas pode prejudicar um aluno que de fato sabe uma questão mais complexa. A TRI é adotada pelo Enem para garantir comparabilidade de notas entre provas de diferentes aplicações. Há lógica de tentar premiar com melhores notas estudantes que demonstrem maior coerência na aferição de suas habilidades.