Quando a guerra civil que sucedeu a Revolução Russa soprou ventos de antissemitismo sobre os judeus do Leste Europeu, os Lispector, arrancados de suas raízes, transformaram-se em nômades. Fugindo da Ucrânia em meio a uma onda de perseguições a bordo da terceira classe do navio Cuyabá, chegaram ao Brasil em março de 1922. No corpo e na memória, traziam sequelas da violência e da miséria que haviam enfrentado.
Em Maceió, onde foram recebidos por familiares que imigraram anos antes, todos - exceto Tania, a filha do meio - ganharam nomes abrasileirados. O pai, Pinkhas, tornou-se Pedro, Mania, a mãe, tornou-se Marieta, Leah, a filha mais velha, tornou-se Elisa, e Chaya, a caçula, transformou-se em Clarice, uma criança apátrida cujo nome viria a ser carimbado na história nacional.
Contudo, Clarice era a única que não se lembrava das tribulações que a família havia enfrentado na Ucrânia. Não fosse pela doença da mãe, que já fora tomada pela paralisia, a futura escritora teria atravessado uma infância comum, ainda que humilde. Enérgica e amigável, ela costumava roubar rosas dos jardins mais abastados de sua vizinhança. Tão logo aprendeu a ler e a escrever, começou a fabular histórias, na esperança inconsciente de encontrar uma cura para Marieta - que, ao falecer, em 21 de setembro de 1930, levou consigo o brilho da juventude da filha. Com o auxílio de Tania, Clarice costumava enviar sua ficção para o suplemento infantil do jornal Diário do Pernambuco, para onde os Lispector se mudaram depois de apenas 3 anos na Capital de Alagoas. Suas histórias, no entanto, nunca chegaram a ser publicadas, pois a narrativa dos sentimentos produzida por aquela criança se mostrava um tanto incomum.
A estreia da autora no mundo editorial veio a acontecer apenas em 1940, com o lançamento do conto "Triunfo no semanário Pan", de alcance nacional. A partir de então, as publicações passaram a ser constantes, e, além de ficcionista, ela passou a atuar como jornalista, desempenhando as funções de repórter, entrevistadora, cronista e colunista.
Contrariando os preceitos da profissão, a produção jornalística de Clarice sempre esteve à luz de suas impressões pessoais acerca do mundo e de seus objetos de investigação, ajudando a construir um importante trecho da trajetória jornalístico-literária no Brasil.