Estamos nos preparando para uma das festas mais importantes do calendário cristão. Pensamos no quanto queremos fazer, quais os preparativos fazem parte do nosso acervo acerca da correria e das situações difíceis em que nos colocamos para então chegar ... na noite do Natal. Esta festa tão esperada produz muitos efeitos, menos a indiferença. Ela tem seus adeptos e seus desafetos. Os demais possuem uma distância neutra frente ao espírito dela. A data começou como uma festa religiosa e hoje toma contornos de uma confluência de ritos e mitos, difíceis de dissecar, e quem dirá nomear.
A ceia, presente ou ausente, termina sendo para todos uma espécie de raio x, que potencializa nosso lugar na dinâmica familiar, onde durante o ano podemos variar e ensaiar posições, mas na festa de natal, o peso do lugar se evidencia: solteiros, viúvos, com filhos, sem filhos, casados, descasados, e que diante do cenário da família, anunciam suas diferenças. Ao mesmo tempo, sabemos que é ali o dia de mostrar as melhores intenções, o quanto somos pacientes, o quanto agregamos, o quanto somos capazes de partilhar, o quanto nos reinventamos, o quanto podemos amar. Seja na posição ou intenção que ocupamos nesta tão esperada festa, o fato é que podemos construir de alguma maneira uma festa real de nascimento dentro de nós.
Nesta data, temos a possibilidade de revisitar uma síntese condensada do pior e do melhor da nossa própria loucura, e ao mesmo tempo de reposicionarmos nosso lugar diante de nossas escolhas, para então, celebrar a plenitude da existência... se pudermos crer. Natal é motivo de alegria e festa para muitos, mas não para todos! Há pessoas que se sentem desconfortáveis com a data e, para muitos, é um dia como outro qualquer. Festas de fim de ano não são épocas fáceis para ninguém, mas constatamos que a maior parte das depressões natalinas vem dos desacertos quanto ao nosso próprio lugar dentro de nós mesmos.
Diante disto, cabe a nós recitar os cânticos que entoamos dentro de nós, nas situações que enfrentamos no decorrer da vida, talvez também para sermos a alegria dos que nos esperam e se preparam para esta tão esperada data festiva. Possibilidade ou não, que a festa seja também de renascimento. E aos poderosos santos e anjos, devotamos todo o nosso afeto e apreço, e ao aniversariante parabéns!
Este texto foi escrito ao som da música "Merry Christmas, Mr Lawrence", de Ryuichi Sakamoto.
A autora é psicanalista pela USP/SP, psicóloga clínica, formada pela USC.