08 de julho de 2026
Articulistas

Preto Noel

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Neguinho loucão catava latinhas e papelão, seu jeito de sobreviver. Meio lesado, falava e fazia coisas que ninguém entendia. E tinha um sorriso tão bobo que a todos irritava. Enquanto latinhas catava, cantava canção besta e desafinada. Desmiolado, viravam-lhe a cara, loucura perder tempo com esse pretinho loucão.

O que catava não rendia pra comida, mas tinha que juntar um pouquinho pro natal. Junto com as latinhas, ele passou a revirar mais fundo o lixo. Queria pano colorido, corda, couro, pedaços de caixote, tudo que lhe pudesse servir. Ganhou tinta preta e amarela, cola, prego e arame de amarrar. Pedia roupa velha vermelha pra quem pudesse ajudar. No barraco, empurrava o sono pra mais tarde, muita coisa pra fazer. Cantando a musiquinha besta, Neguinho loucão endoidou de fazer sem parar bonequinhas de pano e caminhõezinhos de madeira. Tanto era o seu cuidado, tamanho o seu amor, que as bonequinhas de trança de corda e de boquinha vermelha ficavam lindas de se ver. Também lindos eram os caminhõezinhos de farol de tampinha prateada, madeira pintada, embrulhados com fita de laço em folhas de jornal.

Dessa sua fábrica de brinquedos ninguém sabia. Aliás, dele nunca ninguém quis saber. Com as roupas vermelhas remendou a fantasia, a barba fez com tufos de barbante branco desfiado. No espelho, ria de gargalhar. Que ridículo era aquele noel preto! Esquisito, sem barriga, raquítico, coisa que jamais poderia imaginar. Pegou dois sacos de farinha, encheu de bonequinhas e de caminhõezinhos e, sabendo onde a miséria morava, foi direto para aquele lugar. Só de pensar na alegria da meninada, sentia os olhos marejar.

No começo, as crianças estranharam aquele preto noel, mas, vendo os sacos entulhados de brinquedos, rodearam o Neguinho querendo um embrulho ganhar. Uma linda menina foi a primeira a rasgar o pacote de jornal. Emocionada, não sabia se ria ou se chorava. Que bonequinha mais linda! Pretinha como ela! Não podia presente melhor ganhar!, Abraçou apertado a filha para nunca mais largar. "Maria Neguinha", esse seria o nome da boneca, decidido, batizada. E ela, mãe agradecida, pois, na filha linda, podia se enxergar. Cuidaria dela com todo o amor de preta mãe, que é igualzinho o amor de branca mãe. Soluçando, abraçou a barriga magra do pretinho Noel, aquele já era um Natal para sempre.

A molecada rodeava e assediava o Neguinho. Meninos e meninas em algazarra estendiam as mãos disputando cada presente. Teve menina branca ganhando bonequinha branca, mas, querendo, podia ser negra também. Teve menina negra ganhando bonequinha negra, mas podia ser branca também. Tudo ali podia, teve menino ganhando boneca e menina, caminhãozinho.

Na bagunça alegre da meninada, só a alegria contava, nada de gênero ou de cor. Eram apenas crianças iguais abraçando o mais diferente Noel.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.