27 de maio de 2026
Esportes

O dono da técnica

Eduardo Mauad especial para o JC
| Tempo de leitura: 5 min

Quem passa toda manhã pelas quadras de tênis do Bauru Tênis Clube (BTC) pode acompanhar um tenista dando suas aulas na quadra 5. A primeira reação de quem assiste a esse professor é pensar: "como joga bonito tênis esse cara". Quem não o conhece, não imagina que ele foi um dos melhores tenistas do Brasil de todos os tempos. Estou falando de Júlio Cesar Homen de Góes, o Júlio Góes, ou para quem é amante do tênis, simplesmente o Meca.

Meca foi número 68 no ranking de simples da Associação dos Tenistas Profissionais (ATP) e número 69 no ranking de duplas. Não há um único tenista que não reconheça o seu enorme talento e sua inconfundível técnica e mecânica de jogo. Nascido em 1955, o menino que brincava na "Mina do Abelha", descobriu o tênis muito cedo, aos 8 anos, e se tornou o melhor tenista bauruense de todos os tempos.

Bater um papo com o Meca faz você perder a noção da hora, pois a resenha é gigantesca. Tive o prazer de entrevistá-lo para o FIB Esportes, da TV FIB, e reproduzo aqui os "melhores momentos" dessa "aula de tênis e de vida". Meca me disse uma frase sobre os argentinos, que cabe perfeitamente no jogo dele: "Argentino gosta de errar uma bola a cada 45 minutos!" Você também é assim Meca!

Jornal da Cidade - Como foi seu começo de carreira?

Meca - Eu comecei muito cedo, aos 8 anos. Precisava de uns trocados para ajudar a família e fui ser pegador de bola no BTC. Ficava observando os sócios jogarem e fui tentar "rebater" umas bolas. O Cidão (funcionário que cuidava das piscinas) fez uma raquete improvisada, utilizando a madeira de uma caixa de laranja, serrando para dar forma, e comecei a jogar. Ia batendo bola e jogando com os sócios que chegavam e não tinham parceiro. Simples, duplas... sobrava uma "vaguinha", lá ia eu jogar com os mais "velhos". Foi assim.

JC - De onde vem o apelido "Meca"?

Meca - Essa história é boa. Bauru tinha um supermercado na década de 60, chamado Super Meca, que pertencia ao Júlio Meca. Cheguei ao BTC, perguntaram meu nome, eu disse: Júlio. Alguém gritou: Júlio Meca! Ficou para sempre o apelido. Tem momentos que me chamam de Júlio e eu demoro para entender que sou eu (risos).

JC - No juvenil não deu muita coisa. Você explodiu mesmo no profissional, certo?

Meca - Exatamente isso. Fui ganhar meu primeiro título no Brasileiro da Juventude, categoria 19 a 21 anos. Acho que eu tive a sorte de não "sofrer", de não me desgastar muito com as competições no juvenil. É uma pressão muito grande. Um monte de tenista brasileiro espetacular no juvenil não vingou no profissional. Meu "irmão" Celso Sacomandi é um exemplo. O Celso foi disparado o melhor tenista juvenil do Brasil de todos os tempos. Ele não ganhava, ele "massacrava" os adversários. Mas tem vários. O Saliolinha (Marcelo Saliola) é outro. Acho que a rotina, o jogo decisivo todo dia, sobrecarrega. Eu fui enfrentar isso só no profissional.

JC - E você jogou quase todos os Grand Slams...

Meca - Só não joguei o Australian Open. Era longe, era na grama (o piso foi usado até 1987), resolvi não ir e me arrependo. Mas joguei todos os outros. Wimbledon, US Open e o que eu mais gostava de jogar: Roland Garros. Ou eu entrava direto pelo ranking, na chave principal, ou entrava através do qualifying. Eu era o rei do qualifying em Roland Garros. Acho que nunca perdi um jogo de quali em Paris. E o complexo, as quadras de saibro, não tem igual. Nada se compara a Roland Garros.

JC - Já que falou em lugares que adorou jogar, deve ter mais algum lugar marcante.

Meca - Tem um lugar especial, que eu adorava jogar: o ATP de Roma. Lá, eu fiz história e sempre joguei muito bem.

JC - Então conta um jogo inesquecível lá em Roma.

Meca - Vou ter que contar dois (risos). O primeiro foi uma final de qualifying contra o espanhol Juan Avendaño, tenista duríssimo. O cara vencia o terceiro set por 5/3 e 40 a 0 (mais um ponto e acabava o jogo). Começou a chover, o juiz não quis paralisar o jogo, pois achava que o espanhol ia fechar no ponto seguinte. Fiz três pontos seguidos, ficou 40 iguais e aí o juiz paralisou. Voltamos depois de 2 horas, aí eu virei e venci por 7 a 5 o set decisivo. O cara ficou louco. No vestiário ele arrancava os chumaços do cabelo de raiva. O outro jogo foi inesquecível. Quadra central de Roma contra o francês Yannick Noah, na época 4º do mundo e campeão de Roland Garros. Foi um pecado. Tive match point e não consegui fechar. Ganhei o 1º set de 7/5 e estava 4/0 para mim no 2º. Mas aí a torcida toda começou a gritar e o cara virou "um leão". O melhor foi na entrevista coletiva depois. O Yannick falou: "Nunca me fizeram de palhaço na quadra, como esse cara fez hoje".

Meca tinha tanto talento, que colocava o adversário de um lado pro outro da quadra, dava deixadinha (bola curta) perfeita e se o jogador chegasse, tomava um lob (bola alta). Tá ai o motivo da "brincadeira" do campeão de Roland Garros na entrevista.

JC - E tem a visita na fábrica de raquetes Donnay...

Meca - Essa foi demais. Fomos convidados para ir visitar a fábrica das raquetes Donnay, na Bélgica. Cheguei lá, todo feliz, imaginando que ia ganhar mais raquetes iguais a que eu jogava. Peguei minha raquete, mostrei para o dono da Donnay, ele falou: "Você está louco garoto? Essa raquete a gente faz pra principiantes! Vou te dar as profissionais!" Cara, eu jogava com raquete de principiante (risos).

JC - E o melhor de tudo Meca?

Meca - O melhor são os amigos que ficam. Antes eram adversários na quadra, mas hoje somos todos amigos. De verdade. Nos reunimos, jogamos nossas dupladas. Muita amizade que fiz para a vida toda: Carlos Alberto Kirmayr, Ivan Kley, João Soares, Ricardo Camargo, Givaldo Barbosa, Nelson Aertz... muita gente boa. Até os argentinos, que a gente "saía na mão" às vezes, hoje somos todos grandes amigos.

A entrevista completa em vídeo, estreia nesta segunda-feira (27) no FIB Esportes da TV FIB (canal 14 da Net).