Washington - Gerente operacional de um hotel em Governador Valadares (MG), Eduardo José Fernandes Ramos, 59 anos, foi para os EUA e lá ficou por 17 anos, de 1989 a 2006. Nesse período, chegou a morar um tempo no Canadá. Sua intenção era ficar em território americano por alguns anos e depois voltar para o Brasil.
"Quando você vai para lá e tem uma vida regrada, consegue fazer um bom dinheiro", disse Ramos. Ele tem três irmãs que continuam morando nos EUA e conseguiram regularizar sua permanência no país. Assim como ele, muitas pessoas de Governador Valadares e região, que historicamente têm o maior número de emigrantes, ficavam um tempo nos EUA e depois retornavam. Agora, famílias inteiras estão se mudando sem planos para voltar.
Isso tem causado, inclusive, o esvaziamento de cidades do leste de Minas Gerais. Em Tarumirim, que tem cerca de 14.500 habitantes, 1.800 famílias deixaram o município neste ano. Já em Alpercata, 5% da população foi embora, cerca de 350 pessoas. O movimento de famílias que deixam o Brasil tem sido percebido por pesquisadores, autoridades políticas e policiais e por quem acolhe essas pessoas nos EUA.
Sandra Nicoli, historiadora e mestra em gestão integrada do território, explicou que a emigração em Governador Valadares começou na década de 1960. Essa "cultura da migração" foi se espalhando para os municípios da região a partir do final da década de 1970.
Os anos 1980 registraram um grande crescimento no movimento de pessoas que escolhiam deixar o País devido à crise econômica brasileira - o período ficou conhecido como a "década perdida". À época, a maioria das pessoas que migravam era jovem, viajava sozinha e pensava em retornar ao Brasil.
Atualmente, o movimento de migração é caracterizado por um número maior de famílias se organizando para morar em definitivo nos EUA. O perfil predominante é de pessoas que buscam serviço braçal, mas há também cidadãos que deixam cargos públicos, empresas e microempresas para trás.
A decisão do retorno não está mais incluída no projeto migratório. Em muitos casos, as pessoas entram de forma irregular, mas há famílias com acesso legal aos Estados Unidos.