Seria possível armazenar toda a música do mundo de forma permanente, a salvo de catástrofes naturais ou desastres causados pelo homem? Para o australiano Luke Jenkinson, a resposta é sim. Radicado em Oslo, na Noruega, ele é o idealizador do Global Music Vault (ou "Cofre da música global", em tradução livre), que está prestes a iniciar suas atividades numa das zonas mais remotas do planeta, o arquipélago de Svalbard.
Localizado no Círculo Polar Ártico e pertencente à Noruega, Svalbard é uma zona desmilitarizada situada num dos pontos extremos da Terra. Com menos de 3.000 habitantes, o arquipélago é literalmente onde a civilização termina - é o último território habitado ao norte do planeta. Svalbard passa cerca de três meses na escuridão, numa noite permanente, e outros cinco sob o fenômeno conhecido como sol da meia-noite, com a luz brilhando 24h por dia. A temperatura ao nível do mar varia entre 18 graus Celsius negativos e, no auge do verão, cerca de cinco graus.
Cercado por geleiras e com quase nenhuma vegetação, esse conjunto de ilhas do oceano Ártico tem boa parte de seu território formado por permafrost (solo permanentemente congelado) seco. Tais condições de isolamento, frio e proteção fizeram com que Svalbard fosse escolhida, em 2008, para sediar o Global Seed Vault ("cofre global de sementes"), uma estação de armazenamento de sementes de todo o mundo construída para resistir ao teste do tempo.
Nesse mesmo espírito foi criado, em 2017, o Arctic World Archive, o arquivo mundial do Ártico, cuja coleção reúne cópias e dados digitais de tesouros culturais como manuscritos da Biblioteca do Vaticano, quadros de Rembrandt ou ainda descobertas científicas. É a este projeto que o Global Music Vault -GMV- se somará.
As memórias de Jenkinson somadas a experiências recentes no Museu Nacional da Noruega e uma breve passagem como gerente de parcerias globais de Alan Walker, um dos principais DJs da atualidade, foram a inspiração para o Global Music Vault.
Trata-se, portanto, de uma iniciativa privada, tocada por sua empresa, a Elire Management Group. Além do Artic World Archive, ao qual o GMV se integrará, o projeto tem como parceiros o Conselho Internacional de Música da Unesco e a Innovation Norway, braço do governo norueguês para a inovação e desenvolvimento de empresas locais, que financia parte do empreendimento.
O espaço físico ainda está passando por definições, mas Jenkinson garante que será uma usina ecológica, neutra para o clima. E se as mudanças climáticas, como o aquecimento global e a elevação dos oceanos mudarem significativamente as condições naturais de Svalbard? Tal possibilidade foi levada em conta e as cápsulas nas quais os arquivos serão guardados não podem ser danificadas pela água. Por tudo isso, ele garante que a música que for armazenada no Global Music Vault estará acessível por pelo menos mil anos.