09 de julho de 2026
Regional

Arraias fluviais sobem o Tietê e podem causar acidentes graves


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Botucatu - A crescente presença no Rio Tietê de arraias de água doce, peixes peçonhentos com potencial de causar graves acidentes a pescadores e banhistas, pode, a médio prazo, trazer repercussões capazes de alterar a relação do rio com as atividades econômicas dos municípios, especialmente no que diz respeito ao turismo. A constatação foi feita pela enfermeira Isleide Saraiva Rocha Moreira em tese de doutorado defendida junto ao Programa de Pós Graduação em Animais Selvagens da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Unesp de Botucatu (100 quilômetros de Bauru).

A pesquisa, intitulada "Mapeamento de arraias fluviais do gênero Potamotrygon no Rio Tietê, Estado de São Paulo", mostra que esses peixes, vindos pelo Rio Paraná, entraram pela foz do Tietê, no município de Itapura, e já colonizaram até 140 km do rio à montante, ou seja, rio acima, no sentido da nascente. "Estamos tendo, provavelmente, a maior invasão de um animal peçonhento no Estado de São Paulo desde a chegada dos escorpiões-amarelos, que tantos problemas nos causam", alerta o professor Vidal Haddad Júnior, orientador da tese.

ACIDENTES

Embora não sejam agressivas, o potencial de causar acidentes das arraias fluviais é alto. Elas costumam ficar em águas rasas, muitas vezes enterradas nos fundos arenosos dos rios. Quando pisadas, executam movimento de defesa "chicoteando" a cauda e podem atingir o pé ou a perna da vítima, causando envenenamentos. A dor é intensa e, normalmente, surgem feridas nos locais de inoculação do veneno.

Até o momento, de acordo com a pesquisa, o número de acidentes envolvendo os animais é baixo. Eles ocorrem, sobretudo, com pescadores. "Como muitos pescam com rede, a arraia acaba vindo na malha e o manejo para retirar os peixes pode ocasionar acidentes", conta Moreira. Segundo ela, a preocupação com a invasão das arraias ao longo do Tietê cresce em razão de sua chegada a regiões mais populosas do Estado, nas quais, além da atividade pesqueira, a população utiliza o rio para lazer.

Um exemplo é a prainha de Araçatuba, bastante frequentada por banhistas. O professor Haddad ressalta a gravidade da situação. "Não temos estatísticas dos danos colaterais às atividades autônomas de pessoas acidentadas, mas sem dúvida é um problema de saúde pública, com consequências sociais, humanas, econômicas. É uma invasão que vai ter desdobramentos que precisam ser cuidados", alerta.

A PESQUISA

A pesquisa da enfermeira, feita nos municípios de Pereira Barreto, Araçatuba, Santo Antônio do Aracanguá e Buritama, mostra que as arraias já colonizaram totalmente a região do Baixo Tietê, ou seja, o trecho do rio localizado no noroeste do Estado. Com auxílio de pescadores, ela mapeou 40 pontos no Tietê em que as arraias fluviais foram observadas ou capturadas, mas estima que esse número seja muito maior.

A tese aponta a provável expansão das populações de arraias rio acima, com possibilidade de atingir as sub-bacias Tietê-Batalha, Tietê-Jararé e Médio Tietê. E não há o que fazer para controlar o animal, segundo o professor Haddad. "Ele é vivíparo, não agressivo, e se alimenta de insetos ou peixes pequenos. Por ser uma espécie invasora, não tem predadores e se adaptou plenamente ao Rio Tietê", afirma.

A pesquisadora destaca que o único caminho para prevenir os acidentes e evitar o extermínio sem razão dos animais é a adoção de programas de esclarecimento junto às comunidades ribeirinhas e à população em geral, com informações sobre as arraias, cuidados no manejo, primeiros cuidados em caso de acidentes e necessidade de notificação de eventuais ocorrências aos serviços de saúde.