08 de julho de 2026
Articulistas

Bagaço

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 3 min

Pelo cheiro dá pra ver a qualidade da mercadoria. Uns trazem só objeto. Bom quando o caminhão do açougue chega. O osso melhor fica pra quem chega primeiro. Que dia na vida a gente vai comer carne barata, eu não sei. O moço sabe? A moça? Dia desses, descarregaram um sofá de canto. Conto isso porque eu já tinha a almofada. Agora posso sentar conversa. Tudo bem a sala ser pequena. Tapetes de mãe escondem bem os buracos do chão esquecidos de conserto. Nas paredes, as fotos parecem dizer, para quem quiser ouvir, que tudo vale a pena. No alto da porta, quadro de vó e vô juntos. Olhos que trazem a vigília do juízo. Saudades deles.

Reconheço meu homem pelo cheiro. Ele naquela barba de muito mês, abandonada de capim crescido, com cabelo fugido de limpeza; eu sempre espero ele cheirando a sabonete, ele chega, me beija com língua de cigarro e riso safado de cachaça; valeria a pena se ele tomasse banho. E a cama do quarto tão perto! Não sei que graça tem falar mal do lixão. E reclamar de político?! Eles até visitam a gente. Tudo bem que demora, como demora eu lembrar em quem eu votei. Que outro lugar eles apareceriam assim? Tem gente 'on', tem gente da ong. Missionário, daquela grande igreja de público grande, é tão bom que até mandou prefeito asfaltar a rua da igreja. Não faz muito tempo, o homem que grita, pula e canta teve uma revelação. Falou no louvor que nosso Senhor teria um propósito em minha vida. Dito e feito. Consegui sair da fossa e no mesmo banheirinho, parafusei uma privada jogada na caçamba. Quanta fé, fé de..., fé de mais.

Diga pra mim. Explique o que a gente vai fazer da vida. O que a gente vai fazer da vida? Vá, me fale, me diga, me aconselhe. Antes eu duvidava, pecado o meu, o lixão é um ótimo investimento. De novo, que lugar caminhões rodariam até nós para despejar o que nos interessa? A sopa da quarta sempre é garantida. Tem cebolinha, rúcula e água morna de galão rachado exposto ao sol vingativo do meio-dia. Com paciência, só espantar o pássaro preto.

O lixão é herança de família que se lembra de esquecer de comer um terço do que compra. Assim, ganha nosso endereço o macarrão de cor diferente do que a imagem sorri na embalagem, o arroz de cheiro desonesto, desse esquecido num fogão seis bocas parcelado pela classe média nas Casas Bahia. Esse povo surpreende a gente. Bonecas sem braços, sem pernas. Esse povo sabe da gente. Mesmo sem braço pra erguer e perna pra ficar em pé, a gente grita pra compartilhar o pão. E outra, ganhar carrinho sem rodinhas move a gente a dar boa direção à vida dessa molecada.

O lixão é hereditariedade da burguesia que colabora jogando fora a chave dourada redonda, deve ser do portão do casarão; dez interruptores: nove de tomadas duplas e uma tripla, deve ser dos quartos da casa grande; relógio - gente, sem tempo pra isso - balança, deve pesar muito a consciência; caixa com linhas de tricô, deve ser para bordar o avesso do pano, sinal de enganos; colchão duplo com arranhão nos lados, pode ter sido de alguém que recebeu com compaixão lembranças desabrigadas.

Teve um outro dia que acharam uma mulher morta. Parecia ser Madame-Não-Sei-Das-Quantas, daquela que só acorda depois do sol alto. Tinha colar pra eu me enfeitar e alianças pra eu enfiar. A vida bem que me poderia ter dado a sorte de saborear a fruta fresca. Por azar, peguei o bagaço. Sem condições de comprar a fruta madura, o lixão é o mais perto que cheguei da felicidade, esse lugar que todos dizem que existe, mas ninguém sabe como chegar.

 O autor é professor de Língua Portuguesa.