10 de julho de 2026
Geral

Pandemia derruba casos de gravidez na infância e adolescência em Bauru

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Os casos de gravidez na infância e adolescência na rede pública de Bauru tiveram uma queda acentuada em 2021. De acordo com dados fornecidos pela Secretaria de Saúde do Estado, houve uma redução de cerca de 20% em relação à média de anos anteriores. E o motivo dessa nova realidade seriam as restrições e os confinamentos gerados pela pandemia de Covid-19 no ano passado.

Esta avaliação é feita pela coordenadora estadual do Programa de Saúde do Adolescente, Albertina Duarte Takiuti, e suscita reflexões para este tema, que, inclusive, ganha ainda mais os holofotes durante a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, realizada anualmente de 1 a 8 de fevereiro.

Os números apontam que a Maternidade Santa Isabel, único hospital público com o serviço em Bauru, registrou, de janeiro a dezembro do ano passado, 17 partos de mães com entre 10 e 14 anos e outros 172 de adolescentes com entre 14 e 16 anos. Na somatória, significa que 189 garotas nessas faixas etárias deram à luz em 2021, montante inferior aos anos anteriores (veja mais no quadro abaixo).

Embora os dados estaduais demonstrem queda, quem lida cotidianamente com os reflexos dessa realidade ainda considera o montante alto e preocupante. É o caso do presidente do Conselho Tutelar 1 de Bauru, Casemiro de Abreu Neto, que cobra medidas mais efetivas de prevenção de todas as esferas do poder público (leia mais abaixo).

RESTRIÇÕES

Há décadas atuando com a saúde dos jovens, Albertina Takiuti, que também é médica sanitarista, aponta que a redução observada em Bauru é brusca e a relaciona diretamente com a pandemia.

"Com as restrições, as aulas foram interrompidas e os adolescentes tiveram menos acesso a festas. A vida social foi praticamente paralisada por um tempo. Tudo isso ajudou nessa mudança de comportamento", comenta a especialista. A não paralisação da oferta de métodos contraceptivos e anticoncepcionais gratuitos pelo Estado também teria pesado para que a redução ocorresse.

Nas últimas duas décadas, contudo, os dados já apresentavam uma tendência de declínio, após políticas públicas serem implementadas no Estado. "Nos anos 2000, Bauru tinha 1.123 casos de gravidez em jovens. Cinco anos depois, esse número caiu para 578. Mas, nunca houve uma queda tão grande assim, de quase 20%, de um ano para o outro, como agora. Aliás, a diminuição da gravidez em adolescentes na pandemia foi além do esperado e ocorreu não só em Bauru, mas no Estado todo", ressalta.

IMPACTO E COBRANÇA

Outro dado sobre o assunto que pede atenção se refere a um estudo do programa estadual de Saúde do Adolescente. Ele detalha que 60% das meninas que engravidam deixam a escola; em 80% dos casos, o pai da criança some; e 70% das situações terminam com a criança sendo cuidada pela avó materna.

"É preciso alavancar a oferta de ações, ir além das palestras. Bauru precisa de uma Casa do Adolescente (Centro de Atenção à Saúde do Adolescente) para atendimento exclusivo, psicológico, nutricional e social, dessa população. Cidades com PIB muito menor já possuem esse serviço", alerta Albertina Takiuti.

ORIENTAÇÃO AOS PAIS

A coordenadora estadual do Programa de Saúde do Adolescente defende rodas de conversa como bons métodos de acesso ao tema com os jovens. "Uma linguagem rápida e com participação é o que essas gerações mais conectadas querem", pontua.

"Está provado que os adolescentes conhecem os métodos contraceptivos, mas há uma ponte até o uso. É preciso trabalhar habilidade e segurança. Muitos meninos têm medo de a relação não ser boa usando preservativos. E muitas meninas têm medo de não agradarem o parceiro, também deixando de lado o contraceptivo. São mitos que precisam ser derrubados. O afeto e o respeito, sobretudo, devem sempre prevalecer na relação", completa.

Para os pais ou responsáveis, a especialista indica que o acolhimento e a demonstração de afeto devem ser consideradas as melhores formas de prevenção à gravidez precoce.

"Agir como um juiz, criticando e apontando defeitos do filho não adianta. É preciso estimular a autoconfiança desses jovens, se colocar como alguém que o acolha. Eles precisam de mais abraços, olhos nos olhos e menos frases feitas. Em todos esses anos, só vi adolescentes engravidarem por carência de afeto, não por excesso. Eles acabam suprindo essa falta em um parceiro, acreditando que o amor ali é verdadeiro", ensina Albertina Duarte Takiuti.