Dizem que sempre falta uma palavra. Verdade, falta mesmo. Pode ser na chegada, na despedida. É a palavra reveladora que mostra a cara e rejeita concessão. A palavra raivosa que cuspe na boca subserviente. Pode ser delicada, cheia de mesuras, palavra de confeitaria, doce de afetos interjetivos. Comigo não poderia ser diferente. Era ela, a Preta. Enquanto meus olhos nervosos buscavam sua imagem, minha boca tímida se recusava ao mais imediato diálogo. Duelo fornido entre um olhar tônico e uma língua átona. Preta sabia ser verbo de ligação. Era, estava e permanecia bela.
Tinha por Preta um amor de bolo de noiva, de esperas acumuladas. Ainda na faculdade, eu a admirava como quem aprecia a beleza silenciosa de um bonsai a uma certa distância. Seus olhos, da negrura de um anu, deixavam minha pele assaltada de admiração. E ela falava e enquanto falava, vertia o rosto em singelos movimentos. Seus cabelos, rodopiavam capoeiristas num fascínio de ir e vir. Sua boca bordava com delicadeza as palavras; tudo o que Preta dizia era com gentilezas na boca e, assim, ria um riso que fazia morada em seus lábios.
A vida seguia com tudo em cima, sobretudo pra ela morando num andar alto. Eu morava na vila e daí!? Tinha mesmo é de me aproximar dela. Era preciso falar. Você me entende? Era preciso falar. Faltava-me, entretanto, o incentivo da palavra determinada. Eu, na minha timidez itinerante acompanhava seus passos num oferecimento miserável de aceitação. Eu, um papel colado do avesso no poste de uma travessa. Eu, grafite quebrada monologando com o apontador. Ah, como queria ser visto, notado por ela. E se eu gaguejasse, imagine a cena! Eu parado bem em frente dela e de repente eu, ah, esquece, que vergonha! Ou então, desastrado que sou, esquecesse o que dizer, tropeçasse sobre ela; meu Deus! Preta me dava alegria, gosto e taquicardias.
Fim de semestre, formatura, a vida adulta e suas exigências. Apesar disso, eu tinha de falar essa palavra entalhada no tempo. Fiquei sabendo pelo feicibuqui que ela levava a vida no terninho e salto num escritório do centro. Um dia, tinha de falar, tanto tempo, chamei um carro pelo aplicativo e rumei à rua do serviço dela. Finalmente, a palavra adormecida acordaria. No carro, sílabas reprimidas assumiam a direção desse meu jeito desajeitado; de repente, o carro ganha a avenida; as placas, as ruas, o semáforo, o ônibus do bairro me deixavam atônito. Peguei o celular, coloquei os óculos, guardei o celular, segurei os óculos; a palpitação aumentava, tamanha ansiedade e eu tentando me controlar; também a rua do serviço se aproximava; mas dobrada a esquina, lá estava o local. Calado, saí do carro calculando como me dirigir a ela. Na calçada, pardais comiam restos de um mamão maduro. Por um momento, senti-me como aqueles pardais que vivem de migalhas, que aguardam, na compaixão estendida, olhos de retorno.
Tanto tempo e a palavra resistia nos dias que se emboloravam e eu, um cachorro atordoado, tentando, uma vez mais, recompor a realidade do meu faro, e que a cada estouro, enfiava o rabo entre as pernas num latido medroso de vidro moído.
Todo esse tempo, eu não disse a palavra, a palavra que faltava, que sempre falta. Não conheci a boca de Preta, nem seus lábios em festa, muito menos consegui tocar na ponta lisa do seu cabelo faceiro. Nesses sete dias, aqui, em frente ao túmulo dela, crisântemos respiram um novo sol, uma nova vida, naturalmente do mesmo modo que o verão espanta o inverno e a saudade, a solidão.
O autor é professor de Língua Portuguesa