09 de julho de 2026
Articulistas

Não cometa a besteira de cair

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Conselho não se dá, tampouco se vende. Cada um que descubra o seu remédio. Receita de um não serve para outro. Ainda assim, sob hipótese nenhuma, não caia. Ande devagar, mantenha passos firmes e percepção redobrada a possíveis buracos e obstáculos. Faça o que puder e, se puder, faça um pouco mais, mas, repito, não caia. Perigo maior não há. Na lógica do passante, um corpo estirado é um corpo mendigo, bêbado, coisa boa não é. Talvez, ele até fique condoído, mas são tantos os farrapos humanos esparramados pelo chão...

René Robert, fotógrafo suíço, tinha 84 anos e uma sensibilidade incomum para clicar a vida artística. Conhecido pelas fotografias de músicos e dançarinos de flamenco na Espanha, Renê fez registros históricos de celebridades do porte de um Camarón de la Isla e de um Paco de Lucia. Trabalhou, com igual notoriedade, em moda e publicidade.

René gostava de soltar sua imaginação caminhando pela noite parisiense. Era o que fazia, em 19 de janeiro deste 2022, pela Rue de Turbigo, entre a Place de la République e Les Halles. Do nada, sentiu tontura, coisa que qualquer um pode sentir e caiu, coisa que ninguém deveria fazer. Na noite gelada, o artista morria no chão da Cidade Luz. Ao mesmo tempo, passantes passavam apressados, pensando em calefação, cama macia e grossos cobertores. No outro dia, passaram novamente, mas um morador de rua resolveu parar. Sacudiu o companheiro, nenhuma resposta, chamou o socorro. Nada a fazer, a hipotermia acrescentava mais um corpo às estatísticas. Consternados, mendigos circundavam o corpo gelado.

Como era de esperar, a trágica morte de um mendigo famoso ganhou destaque na mídia internacional. O "El Pais" noticiou o fato, entrevistando, Michel Mompontet, amigo do fotógrafo. Indignado, ele discordou de que René tivesse morrido de hipotermia. Nada disso, a doença era muito mais grave: morreu de indiferença. "Quando uma pessoa está caída no chão, mesmo que a gente esteja com pressa, vamos ajudá-la, vamos parar". Foi o que ele disse, aliás, coisa desnecessária de dizer.

Impossível discordar. Afinal, quem está em pé tem que socorrer quem deitado está. Nenhuma pressa justifica ignorar uma vida em risco. Michel disse o óbvio. É assim que deveria ser, mas assim não é. Coisas aflitivas passam pela mente dos passantes. E se for um drogado? Sujeira, fedor, asco, como não vomitar? Responsabilidade minha? Ou seria dos governantes, das autoridades, dos religiosos? Essa gente precisa de moradia, de trabalho, de dignidade humana. Problema desse tamanho não cabe nas minhas mãos tão pequenas.

Às vezes, acontece o absurdo, o inaceitável, a monstruosidade. Estampidos de gatilhos anônimos higienizam a calçada sob a marquise comercial. Outras vezes, o álcool incendeia o corpo que dorme. Como esquecer a madrugada de 20 de abril de 1997, em Brasília, quando cinco jovens de classe média, resolveram, numa noite de tédio, agitar adrenalina no sangue. Atearam fogo no índio pataxó Galdino, que dormia num banco, esperando o ônibus. O delegado indignado perguntou aos meninos: Deus meu! Por que vocês queimaram o índio? A resposta não poderia ter sido pior: Doutor, a gente não sabia que era índio, a gente pensou que era mendigo!

René Robert cometeu o pecado de cair. A vida já é difícil mesmo estando em pé. Morreu de frio, enquanto os passantes passavam. O fotógrafo famoso virou mendigo famoso nas manchetes dos jornais.

Estou me lembrando do samba "De frente pro crime", de João Bosco e Aldir Blanc: "Tá lá o corpo estendido no chão... Veio camelô vender anel, cordão, perfume barato, baiana pra fazer pastel e um bom churrasco de gato. Se a morte aglomera, o comércio prospera.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.