08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A Matrícula

Alfredo Enéias Gonçalves d'Abril, professor universitário aposentado
| Tempo de leitura: 4 min

Numa das visitas vespertinas de sábado realizadas pelo prof. Joaquim Elíseo Mendes, meu quase vizinho e amigo de algumas décadas, falou-me de uma história de ficção por ele criada e publicada num livro da ABLetras, da qual é membro. Versava sobre um homem portador de doença mental, solitário, vivendo sem nenhum recurso próprio em cidade pequena do interior. Atento a sua narrativa, ouvi uma bela história da vida, salpicada de contornos, alguns melancólicos, outros curiosos, daí meu interesse em escrever um conto semelhante. Não li a história de seu criador, prof. Joaquim, mas por ele fui autorizado a escrever o conto sob minha ótica, com as minhas palavras, e publicá-lo no JC, que tem prestigiado tudo que escrevo. Sem objeção, a história que ouvi do professor foi para o computador e saiu mais ou menos assim: Em uma cidadezinha, certo idoso afetado por mal neurológico, morava sozinho numa modesta casa. Tinha como tarefa diária, obrigatória, sob seu falho raciocínio, cuidar de um gato vagabundo, tratando e recolhendo o animal em sua casa todas as noites, não raras vezes pela manhã, quando retornava cansado de suas peripécias nas ruas. Além desse cuidado com o gato, dedicava-se quase o dia todo numa atividade lúdica, de puro prazer, cuidar de um pequeno e florido canteiro fronteiriço à janela da casa, com frente para a rua, por ele montado antes de ser acometido pela doença.

Do canteiro brotavam pequenas e múltiplas flores multicores vicejando o ano todo, chamando a atenção dos transeuntes pela beleza radiante, contrastando com a frente da casa, velha e carente de conservação. Quem por ali passava era atraído pela magnífica paisagem das esplendorosas flores, algumas mostrando o ocaso de suas vidas, ao acatar a ordem da natureza de serem substituídas pelas irmãs jovens, saindo vigorosamente da terra numa transferência de vida natural e necessária, de sorte a perenizar seus encantos aos olhos admirados dos passantes.

Um grupo de crianças escolares caminhava diariamente frente à casa, na ida e na volta à escola de ensino básico e via com curiosidade e admiração o carinhoso tratamento dispensado pelo idoso com as flores de seu sedutor canteiro. Certa vez, numa passagem desse grupo, o idoso disse-lhes que queria matricular-se. As crianças silenciaram, não sabendo o que responder e também não levando a sério a vontade de uma pessoa idosa, conhecida nas redondezas de sua moradia apenas como um velho que não batia bem da cabeça. Inobstante o desdém dos escolares, o idoso repetia a vontade de matricular-se na escola a cada passagem daquelas crianças perante sua casa, até que um dia contaram à professora o que vinha diariamente acontecendo. Sabendo que nada podia fazer, a professora levou o fato ao conhecimento do diretor da escola. Intrigado pela persistência em matricular-se o diretor chamou o idoso para desvendar a invulgar questão.

O idoso apresentou-se ao diretor da escola, vestindo a única roupa decente que possuía, antigo presente de um vizinha caridosa, e não disfarçou um continuo e estranho sorriso ao saber que sua matrícula estava aprovada. De fato o diretor e a professora combinaram atender o idoso permitindo sua permanência na sala de aula como aluno "ouvinte", aquele que frequentava as aulas, sem nenhum compromisso da escola. E assim o idoso foi informado das regras mínimas da escola, como horário do início e final das aulas, a preservação do silêncio o tempo todo, e alguns outros preceitos a manter a disciplina e o aproveitamento na sala de aula. Durante algum tempo o idoso cumpriu religiosamente os deveres que lhe foram encarecidos, permanecendo em silêncio com aspecto de felicidade no fundo da sala de aula, anotando à lápis em um caderno doado pela escola alguma coisa como algo mais importante da matéria lecionada.

Na verdade, o idoso fazia traçados trêmulos de palavras, nisso mostrando sua incapacidade de acompanhar as crianças no desenvolvimento das aulas, o que provavelmente o levou a se afastar da escola. No encerramento das aulas em que o idoso se ausentava, o grupo de alunos ao passar perante a casa dele o via remexendo no canteiro de flores e seu gato deitado ali próximo dormindo preguiçosamente. Os alunos diziam que ele estava matriculado e precisava justificar as faltas. O idoso sempre muito quieto, respondia com certo orgulho que por ser "ouvinte" tinha vantagens.

Em determinado dia, o idoso não compareceu na aula e o grupo de alunos ao passar defronte a casa dele não o viu trabalhando, ficando dominado pelo espanto ao observar que todas as flores estavam murchas e desbotadas, sem vida.

O gato que passou a noite perambulando nas ruas queria entrar na casa, emitindo seguidos miados de desespero, arranhando insistentemente a porta. Nada mais que esses ruídos foram entoados. A matrícula do idoso foi arquivada na secretaria da escola por excesso de faltas.