11 de julho de 2026
Geral

Família em Bauru fica sem carne por meses e vive de arroz e fubá

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Há quatro meses, Ana Claudia Lourenço de Moura, 33 anos, e suas crianças não sabem o que é uma refeição com carne bovina. Os dias na casa da família têm sido com alimentação principalmente à base de arroz e fubá. Com renda menor do que um salário mínimo por mês, a moradora da Vila Dutra conta os "malabarismos" que tem feito, diante das sucessivas altas de preços, para conseguir colocar comida no prato dos três filhos, de 5, 8 e 17 anos (sendo que a adolescente é mãe de um bebê de 10 meses), além dos dois sobrinhos, de 11 e 8 anos, dos quais ela tem a guarda. A luta dela é semelhante à de mais de dez mil bauruenses, que sobrevivem com renda de até um salário mínimo, atualmente em R$ 1.212,00 (piso nacional).

"Praticamente compro só comida e mesmo assim falta", conta Ana apontando para o chinelo reaproveitado que usa para andar quilômetros em busca de recicláveis na tentativa de aumentar a renda. "Hoje tem muita concorrência no reciclável. Dói não ter mais um leite na geladeira de manhã para oferecer. Os quatro litros de leite que recebo do governo dá para um dia só, se todas as crianças tomarem. Quando não tem, ficam dormindo até a hora da escola", lamenta a moradora.

RENDA

Beneficiária do Auxílio Brasil, ela conta que recebe R$ 600,00 do governo e mais uma pensão alimentícia de R$ 300,00 do ex-marido, um servente de pedreiro de 39 anos, com o qual mora na mesma casa para dividir o aluguel. Do total de R$ 900,00, R$ 325,00 vão para a divisão na locação do imóvel de três quartos, cerca de R$ 110,00 para a conta de luz (sempre com um mês em atraso) e aproximadamente R$ 75,00 para o parcelamento da conta de água. Com isso, sobram menos de R$ 400,00 para compras de mercado.

"O preço das coisas aumentou muito. Compro sabonete e papel higiênico e o resto vai para a comida. E é só o básico, nem shampoo e condicionador dá mais, nosso cabelo está duro", pontua. "O cardápio normal em casa é arroz e fubá e, às vezes, cozinho metade de uma linguiça cabo de reio junto para dar gosto de carne. Uso a banha da cabo de reio também para fazer batata ou feijão, quando tem", completa Ana Claudia. Salada e frutas são consumidas apenas quando há doações. "Teve um dia que o vizinho ofereceu tomate e essa foi a nossa 'mistura' do almoço", detalha a moradora.

MAIS DIFICULDADES

Em alguns dias da semana, a família consegue comprar ovos e garantir até três refeições com proteína. "A cartela com 30 ovos é R$ 15,00 e dura só um dia e meio. Por isso, acabo optando pela cabo de reio, que custa R$ 10,90 o quilo, e rende mais, porque o gosto é forte e vai só um pedacinho", compara Ana.

Quando sobra fubá, ela mistura com açúcar, farinha de trigo e óleo e faz bolacha para as crianças. Este é o doce da casa quando acaba o único pacote de bolacha que eles ganham em uma cesta básica recebida da Casa da Sopa da Vila Dutra, uma vez por mês.

A família também recebe R$ 52,00 de vale-gás a cada dois meses, mas, nem sempre, há meios de completar o valor, já que o produto custa acima de R$ 90,00. Prevenida, Ana Claudia recolhe madeiras de móveis quebrados pelas ruas e utiliza os objetos no fogão improvisado com tijolos quando o gás falta.

A volta às aulas até trouxe a expectativa de dias melhores, mas a merenda tem sido insuficiente. "Na escola dos pequenos, é merenda seca. Então ajuda, mas nem tanto, porque eles chegam com fome em casa", pontua.

A roupa dela e dos filhos é obtida por meio de doação em grupos de WhatsApp, com contatos que há anos a ajuda. Ana Claudia engravidou aos 16 anos, mesma época em que parou os estudos, no 8.º ano. "Gostaria muito de trabalhar com computador, mas não sei mexer. Se eu pudesse voltar no tempo faria tudo diferente, teria acabado os estudos e trabalhado com outras coisas antes de ser mãe", finaliza a moradora. A família de Ana Claudia recebe doações por meio do (14) 99679-6410.