Recente levantamento mostra que quase 25% dos jovens brasileiros, entre 15 e 29 anos, não estudam e nem trabalham. Com um agregado tecnológico cada vez maior no trabalho parece que uma coisa é consequência da outra. Em um mundo cada vez mais competitivo e agressivo, como atrair esses jovens para a escola e para o trabalho? E como preparar nossos jovens para um mundo que enfrenta uma crise multifacetada?
Tão importante quanto adquirir conhecimento, o desafio hoje é municiar os jovens de habilidades sociais para que eles possam enfrentar a crescente alienação, as drogas e a violência de toda espécie. O desafio é incutir neles que o sucesso individual só acontece após o sucesso coletivo. Tanto é assim que raramente o êxito de um produto manufaturado é o resultado de uma única pessoa, mas, de um time muito bem entrosado. Portanto, para os jovens sobreviverem ao mundo que virá, devemos ensiná-los a arte da colaboração e do compartilhamento, até porque, a razão da sua inquietude vem do individualismo exacerbado, da necessidade de ser competitivo e do mito da independência.
Essa mentalidade competitiva gera medo em alguns jovens e ensina outros a verem todos a sua frente como objetos ou obstáculos. Vão atrás de tudo o que acham que tem o direito de possuir, mas, são cegos em relação às necessidades de seus colegas e o resultado disso, para ambos, é a solidão. Eles estão cada vez mais assustados porque aprendem a ver todos os seus relacionamentos em termos de exploração e vantagens, onde tudo é medido com base no "o que eu posso obter de você" e assim, condenados a viver segundo um padrão permanente de desconfiança.
Faz uma enorme diferença se nos vemos como indivíduos isolados em guerra contra o restante da humanidade ou como um elo de uma rede de seres humanos que trabalha em busca de um bem-estar que só pode ser obtido quando nós apoiamos uns nos outros. Além de digitar mais do que conversar, uma das várias outras razões para nos encontrarmos nessa situação - um mundo de pessoas solitárias e desconfiadas - é que deixamos de valorizar muitas coisas ricas de significado e as transformamos em coisas comuns e rotineiras e ficamos perguntando: por que existe tão pouca magia em nossas vidas? Cito um exemplo em função de sua importância biológica e emocional: partilhar uma refeição.
Na Bíblia há uma passagem (Levítico 19: 6 e 7) que traz um alerta a aqueles que ofereciam um animal em sacrifício a Deus: toda carne do carneiro sacrificado deveria ser consumida no dia ou no máximo no dia seguinte, pois, seria muito grave comê-la no terceiro dia. A interpretação usual é que, em um clima quente como no Oriente Médio, a carne se estraga rapidamente. Mas, será que cabe uma regulamentação de saúde em um capítulo de instruções éticas?
Na verdade, esse texto nos ensina a partilhar as sobras para que se crie um senso maior de celebração, de proximidade, de parentesco. Se você não vai comer, compartilhe o que sobrou. Se você não vai mais usar, doe. Esse texto é a fonte original do mandamento: amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Partilhar uma refeição precisa ser considerado um acontecimento significativo, no entanto, hoje dessacralizamos o ato de comer, não consideramos sua essência. A hora da refeição acabou se tornando algo como o tempo que passamos em um elevador. Existem outras pessoas ao nosso redor, mas devemos fingir que não as percebemos e de preferência, sair logo dali. Famílias raramente fazem suas refeições juntas e quando o fazem, dificilmente existe um senso de comunidade ou de que essa experiência, ao ser partilhada, se torna única e especial. Quando esquecemos de valorizar toda energia despendida e inserida naquele alimento e o esforço de quem a fez chegar em nosso prato, aquela refeição se torna apenas um ato mundano: permite reabastecer nossos corpos da mesma maneira que reabastecemos nossos carros.
O estudo e o trabalho precisam promover a colaboração e o compartilhamento e as famílias precisam incutir nos jovens a valorização do estudo e do trabalho, pois, ambos alimentam o corpo e a alma, ambos são necessários para a evolução material e espiritual.
O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp – câmpus de Bauru.