Um estudo recém-publicado pela revista científica The Lancet faz uma das propostas mais ousadas já vistas na área da endocrinologia nos últimos anos: mudar o protocolo de tratamento do diabetes tipo 2, doença que acomete 16 milhões de pessoas no Brasil. O grupo de pesquisadores, que inclui o médico brasileiro Ricardo Cohen, coordenador do Centro de Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, aponta que em vez remédios, como se faz de rotina, o médico deve indicar como primeira conduta a perda de pelo menos 15% da gordura corporal.
Os resultados da pesquisa afirmam que a taxa de emagrecimento é capaz de retardar o progresso da doença, evitar complicações e, em muitos casos, revertê-la. "O que nós sugerimos é que o primeiro degrau no tratamento seja a perda de peso. Hoje, isso é pouco valorizado em todas as diretrizes pelo mundo, é sempre o remédio primeiro. Nós não somos contra a medicação, mas acreditamos que uma intervenção sobre o peso pode promover benefícios a vários pacientes, prevenir complicações e tratar outras doenças associadas a ele", diz Cohen.
Os benefícios foram constatados a partir do acompanhamento de um grupo de pessoas com sobrepeso que pesavam em média 100 kg, e que desenvolveram o diabetes tipo 2 há menos de seis anos. Cerca de 70% dos participantes que perderam 15 kg ou mais nos dois primeiros anos, ou seja, 15% do peso, apresentaram uma remissão da doença.
A ideia da nova conduta será apresentada hoje no Encontro Anual da Associação Europeia para Estudos da Diabetes (EASD).
O doutor em endocrinologia e metabologia pela Universidade de São Paulo (USP), Antonio Carlos do Nascimento, explica como o sobrepeso é capaz de provocar e agravar o quadro do diabetes tipo 2:
"O acúmulo gorduroso libera substâncias que interferem na ação da insulina no organismo. Ou seja, quando o hormônio tenta entregar a glicose que está no sangue para as células. Essa dificuldade faz com que o pâncreas se esforce em fabricar mais insulina para compensar, o que leva ao exaurimento da capacidade do órgão em secretar o hormônio."
Cohen diz que em todos os casos a perda de gordura visceral ajuda no tratamento.
O trabalho da The Lancet aponta ainda que a ajuda de remédios e cirurgias para a perda de peso proporcionaram benefícios imediatos no tratamento do diabetes tipo 2.