O direito das mulheres brasileiras ao voto completou 90 anos nesta última semana, mas a participação delas nos espaços de poder, no cenário político, ainda é pequena. Nestas nove décadas, um curto período do ponto de vista histórico, algumas conquistas foram alcançadas, porém, a maior representatividade feminina em cargos públicos segue como um desafio a ser superado.
Especialistas - mulheres - ouvidas pelo JC avaliam que o ambiente político, majoritariamente masculino e, não raro, machista, permanece hostil, o que torna mais tortuoso e difícil o caminho para que elas possam exercer suas funções em igualdade de condições com os homens. Assim, mesmo que 30% das candidaturas em eleições proporcionais precisem ser, obrigatoriamente, de mulheres, nas duas últimas disputas, em 2018 e 2020, o índice de candidatas eleitas para cargos de vereadoras, deputadas estaduais e federais não passou da casa de 16% do total de escolhidos por meio do voto.
"Infelizmente, ainda há muita resistência masculina em relação à maior participação das mulheres na política, embora já existam alguns que apoiem esta causa. Mas elas ainda têm muito trabalho pela frente, precisam se dedicar dez vezes mais do que eles para impor respeito", analisa a militante política Haydée das Dores de Souza, que é uma das fundadoras do Conselho Municipal de Políticas para Mulheres.
E os desafios surgem antes mesmo do exercício dos mandatos. Ainda na campanha, nem sempre as mulheres recrutadas pelos partidos para cumprir a cota de 30% das candidaturas têm garantia de efetivo apoio das legendas e repasse de recursos do Fundo Eleitoral para que consigam divulgar suas propostas.
E, se eleitas, seguem correndo o risco de serem descredibilizadas, desencorajadas e até assediadas - moral e sexualmente - por seus pares. "Porém, justamente em função desta hostilidade, vejo que elas estão marcando presença com uma firmeza muito grande, especialmente no Congresso. Como elas têm de provar que são boas no que fazem, quando apresentam discussões ou projetos, elas estão mais preparadas, instrumentadas", analisa a professora de história Sonia Mozer.
HISTÓRICO
As especialistas explicam que a reivindicação pela participação feminina na política começou a ganhar força no início do século 20, a partir da militância política de mulheres na Europa e Estados Unidos. O movimento, conhecido como sufragista, inspirou outros tantos no mundo todo e favoreceu a conquista do voto feminino em diversos países, incluindo o Brasil.
Em solo brasileiro, esse direito só foi garantido em 24 de fevereiro de 1932, quando o novo Código Eleitoral entrou em vigor, durante o governo provisório do ex-presidente Getúlio Vargas. A data é conhecida hoje como o Dia da Conquista do Voto Feminino. "Porém, na época, não havia a noção de que a mulher deveria votar de acordo com suas convicções, mas sim de acordo com o que o marido ou pai ordenassem. A discussão sobre igualdade de gênero não era efervescente como hoje", pondera Sonia.
Conforme reforça Haydée Souza, mesmo depois deste avanço, as mulheres continuaram sendo criadas para serem mães de família, esposas e donas de casa, ou seja, dedicadas ao universo privado. "Mas, quando, por circunstâncias econômicas, elas começaram a ingressar no mercado de trabalho, passaram a ter mais condições de reivindicar igualdade de direitos, inclusive quanto à atuação na esfera pública", frisa.