10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Vida longa à Cia Estável de dança!

Claudia Leonor Guedes de Azevedo Oliveira - Historiadora, membro da Academia Bauruense de Letras
| Tempo de leitura: 4 min

Desde que voltei a Bauru, em 2010, tenho acompanhado o trabalho da Cia Estável de Dança, um dos grandes feitos para a cultura em Bauru. Como historiadora e como ex-bailarina, compreendo que um corpo estável de dança é de suma importância para a população. Ganham os bailarinos, talentos natos que não teriam condições de se especializar e seguir carreira na profissão; ganham os espectadores no que tange à formação de público que busca nas artes dos espetáculos, o lazer, a fruição e o conhecimento. Sim, assistir a uma peça de dança é também cultura e educação.

A Cia. Estável de Dança construiu, ao longo de seus dez anos de atuação, um reconhecimento respeitável no mundo das artes, dentro e fora de Bauru. Cássia Navas, Inês Bogéa, Esmeralda Penha e Neyde Rossi são alguns dos principais nomes ligados ao mundo da dança que reconhecem o excelente trabalho feito até então, sempre comentando em suas próprias redes sociais as conquistas de nossos bailarinos (bolsas de estudos no exterior, acompanhamento por meio de editais, participação em aulas e estreias). Da terra, nomes como Yola Guimarães, Lucila Teixeira Mendes e também Ruth Nham e Dalva Corrêa da Silva - falecidas recentemente - sempre endossaram e vibraram por nossa companhia de dança. Sim, a Cia Estável de Dança é nossa, leva o nome da Bauru a vários festivais não-competitivos e apresentações em outras cidades, alguns de seus bailarinos foram contemplados com bolsas de estudos no exterior; mas a nossa companhia também se apresenta para os idosos nos asilos, nas festividades públicas e até mesmo em fazendas e acampamentos dos sem-terra, lembrando que um de seus membros, é oriundo deste grupo e que sonhos podem sim se realizar, se houverem condições para isso.

Mas isso não se faz da noite para o dia. O trabalho em dança é forjado nos exercícios repetidos à exaustão, na busca da perfeição, na superação de cada passo executado, no salto cada vez mais alto. É mágico o instante em que o bailarino paira no ar! É um trabalho também regado a suor, dores e lágrimas, sejam elas pelas conquistas, sejam elas pela emoção de cena, sejam elas pelas histórias das grandes mestras - pilares da dança em Bauru - nas famosas homenagens sempre realizadas ao aniversário da criação da companhia, em setembro. Um trabalho de longo prazo, alicerçado na experiência seu diretor, Sivaldo Camargo.

Fui colega de sala de Sivaldo Camargo nas antigas instalações da Luso-brasileira, aluno como eu, de Yola Guimarães. Sivaldo pode até ter alguns defeitos, como todos nós, mas tem uma qualidade: ele exercita o verbo transitar, transitar pelas diversas linguagens artísticas, transitar pelas diversas salas de aula, transitar pelas diferentes expressões artísticas. Assim, ele foi também aluno de Dalva Corrêa, mas dialoga muito bem com outros nomes da dança. Tenho comigo o percurso que ele fez na sequência, ainda nos idos dos anos de 1980: aulas em São Paulo com Ismael Guiser - bailarino argentino radicado em São Paulo e Edith Pudelko - a famosa e experiente solista de Madame Olenewa. Ambos bailarinos de destaque do Balé do IV Centenário, meu tema de mestrado, realizado na Escola de Comunicação e Artes da USP e de onde extrai a minha hipótese de que é por meio de uma companhia de dança que se faz um bom profissional de dança, seja ele bailarino, professor ou coreógrafo. Ou então, uma sucessão destas atividades.

E é assim que eu vejo a Cia Estável de Dança, nestes dez anos sob a coordenação de Sivaldo Camargo: um trabalho que transita pelas diversas expressões artísticas, entre elas o teatro, a literatura e o cinema; uma companhia que sob a sua batuta vai do clássico ao contemporâneo com ênfase nas temáticas atuais - tais como a peça "Frida", que discute a condição feminina, ou então nas temáticas regionais, com a remontagem de "Sertaneja", coreografia de Yola Guimarães, premiada como melhor pesquisa de cena pelo Encontro Nacional de Dança, de 1984, ou a lírica "Gabriela", coreografia de Ruth Nham inspirada na obra de Jorge Amado. Isso sem deixar de lado o apuro técnico lapidado em sala de aulas, por meio de complexas sequências realizadas ou em barra ou ao centro da sala de aula, sob a batuta do "maitre" Sivaldo. A figura do maitre no meio da dança beira o sagrado, é ele que conduz com mão firme um grupo de adolescentes, é ele quem corrige, chama a atenção para os detalhes e elogia na medida certa.

Vida longa à Cia Estável de dança, vida longa ao maitre Sivaldo Camargo!