09 de julho de 2026
Articulistas

Se as mesas falassem...

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Comida na mesa é o símbolo maior de comunhão entre os homens. Nada a ver com a fome da barriga; tudo, com a irmandade das almas. A Santa Ceia, por exemplo. Nela, Cristo repartiu o pão da sua carne e o vinho do seu sangue. Existe prova de amor maior? Se tivéssemos seguido o divino exemplo, teríamos salvado a humanidade da estupidez.

A mesa é o santo espaço de comunhão. Ao redor dela, a fraternidade respira. Confesso, porém, que nunca gostei da faca. Não combina com as taças de cristal, menos ainda com guardanapos e toalha imaculados. Mas fazer o quê? A carne é fraca , mas é dura de comer. Para os dentes mais pobres, pior ainda. Carne de segunda, de terceira, de quarta... Quanta mandíbula dolorida! Então, só mesmo uma faca afiada pra cortar tudo em tirinhas. Pior, muita gente só anda bebendo o caldinho do osso pelado. Além da faca, me incomoda a possibilidade de haver judas entre os convidados. "Traíra" tem em todos lugares. Na cama, então, vixe!

Emociona-me a cena da família levantando brindes de saúde para a alegria do retrato. Entristece-me, porém, ver alguém comendo sozinho numa mesa silenciosa. Todavia, é melhor comer sozinho do que mal acompanhado. Mas vamos à mesa que interessa. Nela, amigos se encontram, quinzenalmente, num bom restaurante, para celebrar antiga amizade. Cristiano e a sua mulher Melena e o Abelhinha e a sua mulher Deia. Em cima da mesa, muita afetividade; embaixo, o pé do Abelhinha, só de meia, roça o pezinho da Melena.

Cristiano, voltando do banheiro, percebeu que o Abelhinha puxou rápido a perna e ajeitou-se na cadeira. A cara dele amarelou, a voz gaguejou, mas foi a careca que o denunciou: gotejava de ensopar o lenço. Seria o sinal do pé pego na botija? Teria coelho naquele mato? Por se reconhecer ciumento, Cristiano admitiu a possibilidade de estar vendo chifres na cabeça de coelho. Melena continuava tranquila e segura. Nada nela indicava sujeira embaixo da mesa.

Cristiano voltou pra casa mordido. Estariam a Melena e o Abelhinha tendo um caso de pés adúlteros? Se agiam assim embaixo da mesa, o que não fariam em cima de uma cama? Precisava desatar o nó insuportável da dúvida. Resolveu conversar com a com a comadre Deia. Assunto sério, precisavam se falar. Marcaram encontro "casual" num café do shopping. Cristiano estava transtornado a ponto de fazer besteira. Atenta, Deia ouviu a história do que teria ou não acontecido embaixo da mesa. Empalideceu. Depois, colocou a casa em ordem. Tira isso da cabeça, compadre! Cabeça ciumenta cria fantasmas! Conheço muito bem o meu marido e a sua mulher. A mão no fogo? Ponho as duas por eles dois. Cristiano agradeceu o paralelepípedo que saía das costas e beijou a mão dela com gratidão eterna.

Sozinha, dentro do carro, Deia explodiu: Filho da puta! Canalha! Outra humilhação! Aqueles pés nojentos tinham sido responsáveis por ela perder muitas amigas e ser chifrada por outras. Só não falara a verdade ao Cristiano porque ele tinha sangue quente. Em casa, a Deia contou tudo ao Abelhinha, inclusive que o Cristiano prometera estourar, com um tiro, a careca dele.

Quinze dias depois, novo encontro. Cristiano bebia e ria muito. O Abelhinha afastou a cadeira da mesa, deixando bem visível a inocência das pernas. Um susto! Cristiano sentiu a perna acariciada por pés pequenos. Olhou para a frente e a Deia, numa piscada, confirmava a sacanagem. Cristiano se excitou e retribuiu o carinho com o dedão ereto. Então, a libidinagem correu solta sob a mesa!

Coitado do Abelhinha! Cristiano sentiu uma pontinha de vergonha. Mas a ponta maior apontava na direção da comadre. Não tem jeito, os homens emporcalham tudo! Tendo tapete, a sujeira se enfia embaixo dele. Não tendo, não respeitam sequer o símbolo maior da comunhão.

Quanta canalhice!

O autor é o professor de redação e escrito de obras didáticas e ficcionais.