Estou oficialmente no mercado de trabalho, com um carimbo em carteira, há 28 anos. Desses, 23 são como jornalista. Nesse período, claro, já trabalhei com inúmeros homens. Nem sempre me senti totalmente respeitada. Já tive ideias rejeitadas. Já deixei de ser escolhida para cobrir um determinado assunto. Já fui tolhida. Mas confesso que nunca levei esses acontecimentos para o lado pessoal nem muito menos os compreendi como machismo.
Eu fui educada por um pai machista, dentro de todo o contexto patriarcal, e justamente por isso, desde muito cedo, quis ser independente. Então, no campo profissional assim como no pessoal eu sempre me comportei demonstrando minhas potencialidades e agindo e pensando como se as diferenças entre homens e mulheres não me afetassem. É claro que sempre conheci e reconheci o machismo. Tanto aquele praticado no dia a dia, como o estrutural, arraigado nos modos de se fazer da sociedade. Para mim, sempre foi mais evidente o machismo da esquina, dos lares de amigas, dos laços familiares.
Nos últimos anos, porém, um alerta acendeu aqui sobre ambientes laborativos - que, para mim, tem sido cada vez mais um laboratório de se conhecer gentes e produzir sentidos. Sinto uma tensão no ar. Percebo o machismo em pequenos detalhes, em sutilezas de homens que nos cercam. Já percebi, por exemplo, interpretarem reações e sentimentos meus com aquele clássico fator limitante: os hormônios. E na pele de cordiais eles chegam até a nos presentear com chocolates! Eu sei que vai ter mulher que dirá: - Deixe de mimimi, fale por você, pois eu adoro ganhar chocolate! Eu sei. Eu também gosto de chocolate. Mas precisamos entender quando o presente é um gesto de afeto e quando é uma forma de "controlar" o que eles julgam ser reações e sentimentos meramente decorrentes de hormônios em desiquilíbrio (um preconceito clássico, como já disse).
Outra sutileza pouco provável de se acreditar é uma espécie de jogo linguístico e comportamental, observado apenas nas entrelinhas com muito verniz, é claro, em que o homem faz de tudo para descredibilizar nossas falas, abafar nossos conhecimentos e interromper nossos passos de desenvolvimento profissional. Essa reflexão me chega em vésperas do Dia Internacional da Mulher e em vésperas de encerrar meus 4.5. É óbvio que não vou sucumbir. A idade, a experiência e a flexibilidade que adquiri nesta fantástica trajetória de ser mulher aqui, nesse tempo, nesse espaço, com os inúmeros privilégios de uma mulher branca, cis, livre e com carimbo na carteira de trabalho, não me permitem nenhum tipo de intimidação.
Mas pratico a empatia e sempre penso nas manas que vivem questões e demandas muito mais violentas e explícitas. Delas, sou apenas uma aliada. E nesse lugar de aliada penso que me cabe escrever mais e levantar essas pautas para que saiam da invisibilidade. Vamos falar disso até que isso não exista.
A autora é jornalista e escritora.