A Polícia Civil de Bauru passará a contar com duas salas de atendimento para que mulheres vítimas de violência registrem ocorrências de forma reservada e sigilosa a qualquer momento do dia. Os espaços - um na própria Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), na quadra 5 da rua Azarias Leite, e o outro na Central de Polícia Judiciária (CPJ), na quadra 23 da av. Rodrigues Alves - estão prontos, com todos equipamentos instalados, mas ainda aguardam diretrizes da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) para começarem a operar (leia mais abaixo).
Batizado de DDM 24h, o programa atende a uma antiga reivindicação da cidade pelo direito à inquirição em recinto especialmente projetado para esse fim, conforme previsto na Lei Maria da Penha.
Os atendimentos, explica a delegada assistente da Seccional, Priscila Bianchini de Assunção Alferes, serão feitos de forma remota por videoconferência. Para tanto, as salas contam com telão, computador, câmera e demais equipamentos para colocar a vítima em contato com uma delegada, que pode estar em qualquer outro município paulista. "É um atendimento mais humanizado e reservado".
REIVINDICAÇÃO
Hoje, mulheres que sofreram violência registram as denúncias na DDM de segunda a sexta, das 8h às 18h. Fora desses horários, as queixas são feitas no Plantão Policial.
No entanto, as vítimas precisam dividir espaço com outras ocorrências. Este fato, segundo o advogado Edilson Marciano, gera situações constrangedoras.
No final do mês passado, de acordo com ele, uma cliente, agredida pelo ex-marido, procurou o Plantão Policial, mas não teria sido ouvida de forma reservada e se sentiu muito constrangida.
CAFÉ DA MANHÃ
Nesta terça-feira (8), um café da manhã na DDM, organizado pela delegada titular da unidade, Márcia Regina dos Santos, marcou o Dia Internacional da Mulher, com a presença de policiais e advogados. A despeito da festividade, ocorrências de violência contra mulheres continuaram sendo registradas.
Uma delas marca mais um capítulo na história da separação de uma mulher de 39 anos do marido, com quem foi casada 14 anos. Ela foi até a delegacia prestar depoimento contra o homem, dessa vez suspeito de agredir a própria filha do casal, de 10 anos. Em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), as identidades foram preservadas.
Segundo a mãe, a agressão ocorreu no final de semana, depois de a menina recusar-se a ir a um restaurante com o pai e a namorada dele. "Quando ele ficou sabendo que eu estava indo buscá-la, colocou ela no carro, gritou com ela, deu murro no painel e empurrou ela para fora quando chegou na minha casa", relata. A menina, ainda segundo a genitora, machucou o pescoço e as costas.
O episódio é mais um dos tantos tipos de agressões que a mulher vivenciou durante o relacionamento. Separados há um ano e meio, ela conta ter sido ameaçada diversas vezes. "Em uma das discussões, ele chegou a colocar uma faca no meu pescoço. Brigamos muito, mandei ele embora várias vezes, mas ele sempre voltava. Eu tinha medo. Só consegui que ele saísse de casa há um ano. Ganhei paz na minha vida", relata a mulher.
Hoje, mais confiante, ela não tem dúvidas de que a denúncia é um importante caminho para outras mulheres vítimas de violência. "Tem que denunciar. Por mais difícil que seja, precisa registar e procurar as autoridades, porque senão o problema vai continuar".