O mega-aumento dos combustíveis pela Petrobras fez disparar a expectativa de inflação para 2022 e tem potencial para deteriorar o quadro macroeconômico do Brasil até o fim do ano, num ciclo vicioso de mais endividamento público e pressão sobre dólar e preços de alimentos. O impacto dos reajustes da gasolina, gás de cozinha e diesel é estimado em 1,5 ponto percentual pelo Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).
Segundo André Braz, analista de inflação do Ibre-FGV, o maior impacto dos combustíveis será em março ( 1,05 ponto percentual), com rescaldo em abril ( 0,47%). "Mas isso não leva em conta os efeitos do 'espalhamento' dos combustíveis nos demais preços da economia", afirma.
JUROS
Poderá exigir que o Banco Central reforce a subida de juros ao longo de 2022 - e mantenha a taxa elevada por mais tempo no ano que vem.
Só neste ano, levando-se em conta uma Selic média de 12% antes do mega-aumento, o Brasil gastaria cerca de R$ 900 bilhões a mais em juros da dívida pública - o dobro do ano passado.
Para José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do banco Fator, o aumento da dívida pública (combinado ao cenário de crescimento baixo ou nulo neste ano) pode renovar pressões sobre o câmbio, aumentando o valor do dólar mais à frente - e pressionando novamente a inflação.
INFLAÇÃO
"Não dá para esperar algo diferente disso [mais juros no Brasil e no mundo para conter a inflação]. E não há perspectiva de que as taxas possam baixar tão cedo", diz o economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central.
Embora o dólar tenha caído cerca de 12% neste ano (de R$ 5,60 para R$ 5), o que barateia, em reais, as commodities agrícolas, os preços internacionais desses produtos saltaram 20% no período. Na média, portanto, os alimentos (com peso de 21% no IPCA) seguem subindo em reais. Só isso, sem contar o efeito sobre fretes e transportes urbanos, eleva a estimativa do IPCA deste ano de 6,2% para 7,5% —mas há bancos considerando 8,5%.