10 de julho de 2026
Economia & Negócios

Mundo precisa de líderes mais humanos

FolhaPress
| Tempo de leitura: 3 min

"Concordo com o filósofo Jean-Jacques Rousseau quando diz que o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe", afirma o empresário João Paulo Pacífico, 43 anos, autor do livro "Seja líder como o mundo precisa" (editora Harper Collins). O fundador do Grupo Gaia, que atua no mercado financeiro, teve há pouco uma experiência que o fez perceber o quanto o ser humano pode ser corrompido. Uma das frentes de atuação do grupo está na securitização de créditos para o agronegócio: a Gaia emite títulos de dívida de agricultores e os oferece a investidores, ganhando na intermediação.

Como empresa certificada do "Sistema B" - movimento global que busca redefinir sucesso na economia, considerando não só o êxito financeiro mas o bem-estar da sociedade e do planeta -, a Gaia trabalhou durante meses para captar recursos para uma cooperativa agrícola associada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Pouco antes do lançamento da operação, uma das empresas envolvidas na operação disse que abandonaria o negócio, o que já não era mais possível. "Fiz uma live com 2.500 investidores interessados no projeto, que é maravilhoso: o MST é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina, mas tem gente que ainda pensa que eles são bandidos", disse Pacífico. "Cerca de 5 mil investidores aderiram à operação, que foi um sucesso, mas até o último minuto ela foi boicotada." Por quê? "Pressão de agentes do agronegócio tradicional, que não queriam ver um projeto do MST prosperando."

O exemplo ilustra a pior situação dentro do "Diagrama de Gaia", como Pacífico classifica líderes e relacionamentos: um líder mercenário (da empresa parceira, que queria agradar a grandes clientes do agronegócio, que pagam mais), propondo uma relação tóxica (a Gaia deveria se sujeitar à decisão dessa empresa, indo contra o que havia sido acordado).

Mas o diagrama também aponta outros caminhos possíveis: um líder humano, que pensa no bem-estar da equipe e dos clientes, tendo uma atitude ativista, ao defender valores que vão muito além do lucro. "São essas as lideranças de que o mundo precisa", diz Pacífico. "Pessoas e organizações ativistas e humanas fazem a diferença no mundo, tornam a vida de todos melhor e o planeta, mais sustentável e habitável."

O empresário diz que empresas ativistas e humanas não são utopia, nem mesmo no mercado financeiro, ambiente no qual Pacífico começou a carreira, em 1999, e reconhece como um dos mais tóxicos. Como bom exemplo, ele cita o holandês Triodos Bank. Fundado em 1980, o banco "pensa na causa antes do lucro" e considera o dinheiro um meio, não um fim.

"Sua missão é fazer que o dinheiro seja um recurso para viabilizar mudanças sociais, ambientais e culturais positivas", diz. "Sem deixar de ter bons lucros e de ser sustentável financeiramente", afirma Pacífico. O Triodos, por exemplo, chega a negar a entrada de novos clientes, se não tem bons projetos em mãos no momento para investir o dinheiro deles, conta.

"O Triodos só empresta dinheiro para pessoas e organizações que fazem o mundo melhor e atuem em um dos seguintes setores: ambiental, cultural e social, incluindo habitação", diz Pacífico. Além disso, no banco, a relação entre o maior e o menor salário é de dez vezes. "Cerca de 40% de seus gestores são mulheres, em um mercado prioritariamente masculino. O banco também tem programas de treinamento e contratação de refugiados", afirma.