09 de julho de 2026
Articulistas

Amar: verbo de pretéritos imperfeitos

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 3 min

Aluno do conservatório, Jorginho gaguejava curiosidades ao que a vida lhe dispunha. Com o pescoço pendendo de bentinhos, certo das muitas rezas que fazia, sua adolescência escorria retilínea como um fio de chuva no vidro da janela. Tímido e virgem, o sexo lhe acenava sorrindo. O corpo, abotoado à formalidade das apresentações musicais, duelava com a língua que, irrequieta, serpenteava em busca de outras bocas. A tentação o visitava e perversa sentava-se ao seu lado. Eram as meninas do terceirão que, morenadas de piscina, cruzavam as pernas e as dúvidas pro Jorginho no plantão da tarde.

Melhor aluno da turma, convidado fora pela escola a auxiliar estudantes no aprendizado da matemática. Coitado do Jorginho. Bom de cálculo e de conta, não contava com vontade incendiária a rondar seu corpo como um bicho criado dentro de si. Intervalo. Enquanto, na sala de aula, cadernos, livros dormiam sobre as carteiras, alguns ouviam música; outros exibiam músculos como únicas medalhas de reconhecimento; meninas se viam na tela do celular para retoque de maquiagem; Jorginho nada exibia, debruçava-se nas leituras.

As meninas lhe chegavam com balas às mãos, e a timidez permanecia pra lhe diminuir. Pra piorar, saía um fio de voz com agradecimento abafado de vergonha. Sem chance. Como conquistar uma garota assim desajeitado, feito trapo de nuvens escondendo sol morno!?

O jeito foi partir pra observação. No prédio em que morava, passava parte do tempo com cotovelos na janela espiando. Ele descansava a vista de ver quem cansava as pernas batendo ruas e ruas. No quiosque do prédio, cavaquinho e pandeiro assanhavam-se em horas de alegria definitiva. A cerveja bebia de felicidade a vida acontecer de domingo. A timidez, sempre ela, se agitava na presença feminina para completar uma vida emudecida de resignação.

Refém de uma timidez castradora, o tempo passou varrendo hábitos, despachando mudanças. Abandonou a música. Maestro de seus atos, acrescentou, sem dó, nova clave em sua vida. Faculdade. No terceiro ano de engenharia, conheceu alguém que transformou seu conceito de amor. Prudência, Jorginho! Foi na saída. Percebendo o desassossego da pessoa em retornar pra casa, Jorginho lhe ofereceu carona. A gentileza fora retribuída por um café, coisa rápida na edícula.

Na sala, um cheiro de cigarro molhado com cachaça imprimia em Jorginho repugnância. Enquanto a água fervia, algo borbulhava dentro dele. E ela se aproximou e colocou bolo. E pôs manteiga no pão. E ela perguntou se ele queria mais café. Hã? Quero sim, obrigado. Ela se equilibrava no salto com ares de que sabia o que estava fazendo. Não demorou muito pra ela ir ao banheiro. E Jorginho ali, num ninho estranho, agraciado por um café, ora, ora. Ela mijou, nem deu descarga. O café estava cheiroso. O bolo também. Que horas? Onze?

A conversa avançou ganhando a madrugada e o prazer. Quando acordou, depois de tanto sexo, cadê ela? A danada saiu logo cedo. Só sobrou o chiclete, cheio de formiga no cinzeiro ao lado da cama. De alguma forma, brilhava uma alegria no peito dela. No peito da travesti. Jorginho e Lorrayne vivem felizes e uma realização dessas... falo demais? Põe falo nisso.

 O autor é professor de Língua Portuguesa