08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

E a Ética para com nossa Mãe Terra?

Norberto Carlos Weinlich - Professor e escritor, com livros publicados sobre Ética
| Tempo de leitura: 4 min

Estamos em tempos difíceis, novamente é a estiagem e nos encontramos dependendo das chuvas em volume e frequência suficiente para que não falte a abençoada água em nossas torneiras e em nossos copos para matar nossa sede. Ao olhar para as notícias na mídia, vê-se que o consumo em nossa região se apresenta elevado, mesmo com os reservatórios em níveis críticos. O consumo consciente, onde foi parar? Parece que os cidadãos não percebem que para equilibrar o consumo de água é preciso mudar padrões de comportamento, principalmente aqueles profundamente arraigados, ou em outras palavras, mudar a cabeça de quem usa a água. Teria a Ética algo a nos dizer neste contexto preocupante? Sim, preocupante, pois registra-se um aumento significativos de queimadas nestes tempos de baixa umidade do ar, pois tudo fica muito seco. Embora todos saibam que é proibido por lei provocar incêndios intencionais, para que finalidade seja, o fato é que diversas manhãs nos surpreendem com o quintal de casa cheio de cinzas. O que significaria isto? Recordemos Pierre Wiell, em seu livro 'Normose, a patologia da normalidade'. Normose ele define como sendo um conjunto de hábitos considerados normais que, na realidade, são patogênicos, e nos levam à infelicidade e até à doença. Também nos remete à perigosa realidade em que o hábito nocivo torna-se a norma de consenso. Tratada como característica automática e inconsciente, a que nos acostumamos tanto com essas atitudes, que nem pensamos em questioná-la. Exemplos? Desperdiçar água lavando carros ou calçadas descuidadamente quando estamos com os reservatórios tão baixos; tocar fogo em terreno, para ficar mais fácil limpar o mato, e por aí afora! Diante do exposto, a prática da normose faz parte não só do cotidiano. Seja em termos de conduta moral, pessoal e/ou profissional, tomamos decisões em que a consciência, por vezes, não a acata como verdadeira, mas, uma vez que é consenso e 'todo mundo faz', a decisão é tomada. Surge aí o espaço do cidadão ético. Aquele que encara com seriedade o seu viver e se predispõe a olhar de frente seus hábitos e costumes. Para ele a normose não tem vez. Sabe o que é ser ético e pauta seu viver em conformidade com sólidos princípios morais apoiando-se em ideais como equidade, justiça e confiança, fundamentados em valores humanos, aquele conjunto de virtudes que compõe a essência do ser humano, independente de ideologia, crença, credo, condição social, religião ou cor, pois tais qualidades são inerentes a todos nós. E com esse olhar, compreende o papel de cada um nessa luta maior, na qual se vê florestas que entram em chamas, desertos que se expandem, o derretimento de icebergs e o aquecimento global, uma vez que a temperatura de nosso planeta aumentou de 1,07 0C (segundo o IPCC). Nesse mundo interconectado por redes de comunicação, satélites, tecnologia móvel de quinta geração, sabemos de forma clara e inequívoca que tecnologia apenas não salvará esse mundo, mas é imprescindível que esteja conectada com responsabilidade ética. Uma vez mais é preciso entender que ser ético passa por compreender a necessidade urgente do pensar global e agir localmente. Na mitologia grega, a Caixa de Pandora contém todos os males do mundo, dentre eles: destruir as florestas; poluir o ar, os campos, os mares, os oceanos; comprometer a biodiversidade, matando espécies de fome e sede, destruindo seus ambientes naturais; aquecer a terra com gases de efeito estufa; dentre tantos outros mais. E, dentro desta misteriosa caixa um somente um único dom: A Esperança. Ela não deveria ser aberta, mas Pandora - a primeira mulher da Terra - desobedeceu a Zeus, fazendo emergir todas as desgraças. E a fechou antes que a esperança pudesse sair, naquilo que se tornou a última consolação humana. Em relação aos últimos desastres ambientais? Que posição tomar, ética ou antiética? Uma vez que todos estamos cientes que essa forte relação, entre os eventos extremos que acontecem em todos os continentes e as mudanças climáticas, é devida em grande parte à ação do homem. Vamos deixar a Esperança sair da caixa de Pandora, cabe a nós também esta ação! E para finalizar, com uma pitada de bom humor, lembramos o inesquecível Millôr Fernandes (1923-2012), com suas colocações preciosas e provocativas ao nos dizer: "Tantos anos o país se descuidou do meio ambiente que, agora, se quiser salvar alguma coisa, tem que tratar o ambiente inteiro".