11 de julho de 2026
Geral

Procura por aulas de reforço dispara, mas defasagem escolar deve levar anos

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

Com a retomada efetiva das aulas presenciais e início da divulgação das notas das primeiras provas neste bimestre inicial do ano letivo, a defasagem escolar dos estudantes tem ficado cada vez mais clara para as famílias e profissionais da educação. Neste momento, em que 'a ficha começa a cair' em relação aos impactos de dois anos de pandemia, fez disparar a procura por pedagogos e unidades que trabalham com reforço escolar em Bauru.

Uma pesquisa divulgada pela rede Ensina Mais Turma da Mônica, do Grupo MoveEdu, revelou que, no País, o aumento foi de 70% neste início de ano, na comparação com o mesmo período de 2021. E os prejuízos maiores têm sido identificados em crianças entre 6 e 9 anos, matriculadas nos anos iniciais do ensino fundamental.

De acordo com o levantamento, após o longo período de ensino remoto, três em cada quatro crianças em fase de alfabetização precisarão de reforço para conseguir aprender os conteúdos não assimilados durante a pandemia e os novos que estão sendo ensinados agora.

Proprietário da unidade de Bauru da rede Ensina Mais, Bruno Pereira Chies frisa que a procura por ajuda de pais preocupados com o desempenho escolar dos filhos também cresceu na cidade, embora não na mesma proporção do que a pesquisa de âmbito nacional demonstrou. "Agora é que os pais estão tendo a real noção do tamanho do problema, principalmente de crianças que estão sendo alfabetizadas", frisa.

Todos os profissionais ouvidos pela reportagem são unânimes em afirmar que esta defasagem não será superada em curto espaço de tempo. A expectativa é de que a adequação do nível de aprendizado dos alunos ao ano escolar em que estão matriculados demore anos, possivelmente até mais do que os dois anos de crise sanitária.

'DESESPERADOR'

Pedagoga e proprietária de uma filial da rede Meu Dever de Casa Escola de Apoio, Paula Rocha acredita, inclusive, que o número de analfabetos funcionais poderá aumentar ao longo das próximas décadas, como resultado deste momento. "A situação é desesperadora. Tenho trabalhado com criança de quarto ano, ou seja, com 9 anos de idade, que ainda não consegue ler. Estamos muito preocupados com as consequências de longo prazo que esta defasagem irá provocar", observa.

De acordo com ela, as dificuldades são sentidas com maior intensidade entre alunos da rede pública. Os resultados do Saresp de 2021 já haviam demonstrado estas perdas, com alunos do 5.º e 9.º ano do fundamental e 3.º do ensino médio registrando atrasos de dois a três anos no nível de proficiência em língua portuguesa e de três a seis anos em matemática.

"Como os conteúdos de um ano são a base para novos aprendizados nos anos seguintes, eles não conseguem avançar na disciplina, porque não assimilaram o que foi ensinado lá atrás. É um efeito em cadeia", acrescenta Paula. Regiane Zacarias Carulo, pedagoga que atua na unidade da Ensina Mais, relata que muitos alunos do 3.º ano do fundamental, por exemplo, não sabem fazer junção silábica ou apresentam dificuldade para reproduzir o som das vogais.

'SEM BASE'

Outra situação sensível é a de alunos que entraram agora no 6.º ano, quando o volume de disciplinas e professores aumenta consideravelmente. "Eles não foram preparados para isso, até porque perderam a base do 5.º ano. Não há meios de superar esse prejuízo em curto prazo. Levaremos, certamente, alguns anos ainda", completa Regiane.

Segundo o diretor regional do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieeesp), Gerson Trevizani Filho, as escolas da rede particular, mais bem equipadas, conseguiram atender melhor as demandas dos alunos a distância, embora prejuízos também tenham sido observados, principalmente entre estudantes que já apresentavam algum tipo de dificuldade antes da pandemia. "Muitas escolas estão fazendo aulas de reforço para suprir essa defasagem. Tivemos prejuízos, mas também um aspecto positivo: a aceleração da inserção das plataformas digitais como aliadas do ensino", completa.