09 de julho de 2026
Articulistas

Pra variar, estamos em guerra

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Não dá para imaginar o leão discutindo a sua fome com a corça. Razões existem de ambos os lados. Um precisa comer; o outro, fugir. Os dois precisam viver. Entre os homens, seres dotados de fala e de entendimento, nada justifica a monstruosidade da guerra. Jovens soldados matam soldados jovens, que não se conhecem, tampouco se odeiam. Histórias de família são interrompidas por bombas estúpidas. Das casas nada sobra, senão lembrança doída e entulhos. Cidades queimando, sirenes berrando, gente desesperada correndo. Chorando, maridos se despedem das mulheres e dos filhos, convocados que foram para matar ou morrer. Mães arrastam mochilas e crianças espremendo-se em trens ou ônibus lotados. Quem sabe um lugar seguro para respirar e viver?

O homem belicoso não cansa de dizer que guerra é guerra, vale tudo! Não, não vale, não! Nada pode ser tudo. Até o tudo precisa de limites. Quando o tudo é absolutamente tudo, não somos nada. Apenas seres acuados pelo insuportável, pelo desumano, pelo horror. O tudo é o "crime de guerra." Por isso, as Convenções de Genebra estabeleceram, em 1949, os limites legais para que houvesse, na monstruosidade, um mínimo de tratamento humanitário. O problema é que a guerra nunca gostou de limites. Criminosas são essas bombas que estão caindo em endereço errado. Parem de explodir hospitais, maternidades, prédios residenciais, teatros, escolas! Parem de despedaçar gente na cozinha, no quarto, nos porões! Parem de assassinar inocentes desarmados!

Bombas de fragmentação fracionam-se para matar mais. Bombas termobáricas geram explosões de alta temperatura também para matar mais. A tecnologia bélica não cansa de inventar formas de matar mais em menos tempo. De que valem os tratados e os regulamentos humanitários se as bombas não sabem ler? Agora, dada a heroica resistência do povo ucraniano, o puto do Putin ameaçou usar "as armas russas de dissuasão", entre elas, ogivas nucleares. Tal acontecendo, iniciaremos a terceira e última guerra mundial. Será o fim da civilização. O tudo virará nada. A gente ouve que isso jamais acontecerá, seria a mais insana loucura. Sim, seria, mas alguém acredita na sanidade mental do puto?

Num mundo economicamente combalido pelos ingentes gastos da pandemia, a invasão da Ucrânia faz disparar os orçamentos de guerra. Na Alemanha, o primeiro ministro Olaf Scholz anunciou que o país deverá gastar 100 bilhões de euros, triplicando o orçamento de defesa. Magdalena Anderson, primeira-ministra-social-democrata da Suécia, disse que "queria investir em escolas e aposentadorias, mas devemos gastar mais com defesa." O dinheiro da prosperidade e do bem estar social está sendo engolido pela tecnologia da morte. Com um riso tétrico, a indústria militar celebra o fato de a morte estar em alta.

Na Ucrânia, a dor é subterrânea. Haliana Ivanivna acolheu desabrigados em sua hospedaria. Onde viviam 60 trabalhadores, agora vivem 172 pessoas, entre as quais crianças, muitas mulheres e poucos homens, na maioria idosos. A hospedaria também foi bombardeada. Todos foram para os porões: entulho, poeira, nenhum aquecimento e escassa comida. Só dá pra fazer rassolnik, uma sopa de cevada, picles e batata. Duas conchas e meia para as mulheres com filhos. Uma para homens. A neve derretida garante a água da sopa. Acabou a batata. A sopa, agora, tem gosto de guerra, gosto quente de água salgada.

E o que fez a Ucrânia para merecer tamanho castigo? Nada. Foi invadida por querer ser livre, escolher o seu destino, mandar na sua casa. O puto decidiu que não. Exige o povo ajoelhado e humilhado sob o seu comando. Sopa horrível, água quente e salgada, gosto de guerra.

Difícil de engolir!

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.