As últimas semanas foram de temor constante para Galina Bogdanova, 39 anos, ucraniana que mora em Bauru há dez anos. No dia 17 de março, o pai dela, Oleksandr Shuhurov, 69 anos, começou uma tensa jornada para deixar o país europeu e só desembarcou no Brasil oito dias depois. Por ele, a empresária segue mais aliviada. Contudo, persiste o medo pelos parentes e amigos que ainda vivem na cidade natal, Mykolaiv, uma das áreas mais atingidas pela guerra contra os russos.
"Eu falo com meus tios, primos, amigas todos os dias. Ligamos para perguntar se estão vivos", relata a ucraniana, em português bastante marcado pelo sotaque estrangeiro.
Hoje empresária, Galina foi professora de inglês, conheceu o marido brasileiro e resolveu se mudar para cá com a filha do primeiro casamento, também ucraniana.
SAGA
Até desembarcar em Guarulhos, no último dia 25, Oleksandr percorreu uma jornada de cerca de 13 mil quilômetros (veja mais no quadro abaixo), na qual deixou quase tudo para trás e encontrou bastante ajuda. Ainda cansado e sentindo as diferenças climáticas (quando saiu de Mykolaiv, fazia 15 graus negativos), preferiu não participar desta entrevista com o JC.
"Ele não queria sair da Ucrânia, mas uma amiga muito próxima queria fugir com a filha. O marido e filho, porém, não podem sair. Eles estavam vivendo no porão há muito tempo. Pedi para meu pai ajudá-las e foi quando ele aceitou vir para o Brasil", conta Galina.
Outro ponto que pesou na decisão pela vinda foram as dificuldades para encontrar comida, água e itens básicos.
De carro, os três foram até Odessa, perto da fronteira com a Romênia. Na Ucrânia, conta Galina, homens de 18 a 60 anos podem ser convocados pelo exército, portanto, não são autorizados a deixar o país. "Tem postos militares em todos os lugares, conferindo documentação. Há longos congestionamentos nas estradas", explica. Na fronteira, conseguiram passagens de ônibus para a cidade de Bucareste e abandonaram o carro.
SOLIDARIEDADE
Na capital romena, Oleksandr morou dois dias na casa de voluntários até conseguir transporte. "Ele ficou bastante impressionado. Eram pessoas maravilhosas, deram comida, água". Depois, obteve passagens de ônibus e de trem, novamente de graça, para seguir até Budapeste, capital da Hungria.
Veio, então, outra longa viagem até Frankfurt, Alemanha, onde conseguiu, pela Internet, comprar passagens ao Brasil. No entanto, Oleksandr teve que esperar mais dois dias no aeroporto até saírem resultados de testes para Covid-19. No check-in, novo obstáculo: a passagem não permitia malas grandes, apenas bagagem de mão. "Ele não fala nada de alemão, me ligou desesperado. Não queria largar a mala porque eram as poucas roupas dele e as fotos da minha mãe (falecida). Ele chorou, estava tão esgotado que o colocaram em uma cadeira de rodas", relata a mulher. Por fim, Oleksandr conseguiu pagar a diferença, despachar a bagagem e embarcar.
Em Lisboa, novo revés. Exausto e nervoso, o ucraniano dormiu no saguão e perdeu o voo. Por telefone, o marido de Galina convenceu a funcionária da companhia aérea da gravidade da situação e forneceram novas passagens, sem custos, para Oleksandr. Só então pai e filha finalmente se abraçaram em solo brasileiro. "É um alívio saber que ele está vivo", comemora.
VOLTAR
Mesmo afastado do perigo, Oleksandr, caminhoneiro aposentado, pensa todos os dias em retornar para a Ucrânia. "Assim que a guerra acabar, ele pretende voltar porque quer ajudar a reconstruir o país. Vão precisar muito de caminhões para transportar alimentos e produtos necessários para as cidades", conclui Galina.