As histórias de empreendedores africanos no Brasil têm origens tão diferentes quanto os países do continente. Em um olhar sobre o setor de moda, estão desde acadêmicos que se tornaram microempresários a refugiados que optaram pelo comércio em busca de uma vida nova. Em comum há a dificuldade em lidar com as regras locais em um momento hostil para os negócios.
"Acredito que o denominador comum de todos os empreendedores são os desafios que temos de superar o tempo todo. E ser estrangeira, mulher negra e africana fazem as dificuldades aumentarem", afirma a senegalesa Sokhna Serigne Kene Ndiaye.
Ela chegou ao Brasil em 2004, com o marido, Mamour Ndiaye. Ele, que já havia se graduado em engenharia elétrica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, retornou ao País para fazer mestrado e doutorado.
O casal iniciou o negócio para ajudar a pagar os estudos. Hoje Mamour é professor universitário, enquanto Sokhna administra a grife. "Já trabalhei com vários produtos do continente africano, como cestaria, máscaras, tecidos e moda em geral, mas acabei focando moda para melhor planejar e gerenciar o trabalho."
Embora tenha experiência comercial no Brasil, Sokhna ainda tem dificuldade para obter crédito, situação agravada pela alta da taxa Selic. "Em geral, não há acesso [a crédito], e, quando temos, os juros são desumanos."
As taxas elevadas desmotivaram Benazira Djoco a buscar financiamentos. Nascida na Guiné-Bissau, ela é estilista e dona da grife de moda praia que leva seu nome. Ela chegou ao Brasil ainda adolescente para concluir os estudos. Além de cuidar da sua empresa, Benazira é ativista social e busca orientar outros imigrantes africanos.
Vanessa Tarantini, associada de soluções duradouras do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur), confirma que um dos primeiros desafios é regularizar o negócio.
Embora não haja um levantamento oficial, Vanessa diz que, nos eventos de capacitação promovidos pelo Acnur, cerca de 40% dos estrangeiros presentes não têm empresa registrada. Uma das barreiras é a dificuldade em entender as regras do Brasil. As informações disponíveis, diz, não são suficientemente claras.