09 de julho de 2026
Articulistas

Filme preto e branco

Alfredo Enéias Gonçalves d'Abril
| Tempo de leitura: 3 min

Quando Pedrinho completou 20 anos de idade, seus pais o levaram ao cinema para que assistisse a um filme considerado pela crítica como obra-prima do cinema norte-americano, o qual narrou uma tragédia envolvendo atriz famosa do cinema mudo, inconformada pela ausência de convite no momento em que o cinema ganhou sonoridade e cor. A despeito de manter aos 50 anos de idade os traços da mulher esguia e charmosa, de porte elegante, chamava mais a atenção pelo notável talento do que pela beleza. Essa mulher vivia no tempo que era saudada com empolgação nos filmes do cinema mudo, e a mudança de situação mexeu com sua vaidade.

Servia-se sem cerimônia da prepotência nos diálogos para mostrar que o seu festejado talento não podia ser vencido por outras estrelas mais jovens surgidas com o cinema sonoro. O filme foi lançado nas telas dos cinemas americanos em janeiro de 1950, todo gravado em celuloide preto e branco, justificada a combinação de apenas duas cores no fato do filme colorido estar saindo da etapa embrionária com os primeiros deles em cores esmaecidas, bem longe de apresentar uma novidade surpreendente. Segundo famosos produtores do cinema mundial, o filme em preto e branco revela melhor realismo nas imagens em relação ao colorido, realçando com maior precisão, nitidez e naturalidade os traços identificadores dos personagens, cabendo a projeção da sombra escura sobre a cena toda ou no rosto da atriz produzir uma imagem mais interessante, paradoxalmente, apenas com a combinação duas cores.

O pai de Pedrinho já havia assistido a esse filme quando de seu lançamento e, impressionado com a história e seu modo de desenrolar (a história começa de trás para o início), levou sua esposa e Pedrinho para assistirem ao 'Crepúsculo dos Deuses', isso no começo dos anos 70. Pedrinho, que gostava de cinema, não suportava ver cenas dramáticas, pois era admirador dos filmes de ação, de caibóis, desenhos animados e outros enlatados coloridos, escutou de seu pai a descrição do papel de Gloria Swanson, dizendo ao filho que estaria diante de verdadeiro show de interpretação da atriz no papel de Norma Desmond, uma ex-estrela, desatualizada, mas comportando-se na vida diária, fora da atuação, de maneira irreverente e desafiadora.

A imaturidade de Pedrinho apresentava-se com incontornável empecilho a entender um enredo entranhado de dramaticidade e uma dose de mistério, e isso o deixou impaciente na poltrona do cinema torcendo para que o filme acabasse logo. No final, o pai ainda sensibilizado pela grandeza do espetáculo pensando como foi bem costurado o ocaso do drama, perguntou ao filho se havia gostado do filme. Não querendo decepcioná-lo, Pedrinho entregou-lhe o sim, inexpressivo, chocho, enfatizando que seria bem melhor se fosse colorido, sem levar em conta, em face de seu despreparo para entender a grandiosidade da arte dramática de uma atriz, e dos efeitos impactantes da boa convivência entre apenas duas cores.

O pai de Pedrinho, que era cinéfilo com o mesmo entusiasmo do articulista do JC Fauk, daqui mesmo da cidade, diante da resposta do filho pensou o que seriam dos filmes de Charlin Chaplin, incluindo os da era sonora, todos gravados em preto e branco, se fossem coloridos, e outros, como a 'Lista de Schindler', deliberados a preservar a originalidade das cenas.

O autor é professor universitário aposentado.