08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Mairiporã

José Eduardo Rubo
| Tempo de leitura: 3 min

Na quinta-feira dia 31/03/2022, navegando em minhas redes sociais, fiquei espantado com as manifestações publicadas enaltecendo e fazendo apologia ao golpe militar de 1964. Pensei comigo mesmo: como é possível? O que isso significa? Como as pessoas podem não mais se lembrar daqueles dias? Tudo bem, podemos dar um desconto se considerarmos que a grande maioria dos perfis nas redes sociais são de pessoas com menos de 40 anos de idade, significando que nasceram na década de 1980, quando o poder já estava retornando às mãos da sociedade civil.

Essas pessoas não vivenciaram a ditadura militar e não tem a menor ideia do que estão falando. Mas e aquelas que vivenciaram? Como explicar esse comportamento?

Como podem essas pessoas não se lembrar da icônica imagem do jornalista Vladimir Herzog toscamente "suicidado" no interior de uma cela do DOPS/SP e de tantas outras imagens, histórias, perseguições, assassinatos políticos, valas comuns como as encontradas no cemitério de Perus, prefeitos e governadores biônicos e outras tantas excrescências antidemocráticas?

Será que não se lembram das receitas culinárias publicadas na primeira página de jornais de grande circulação como o Estadão, Jornal do Brasil e tantos outros, ocupando espaços deixados pelas matérias censuradas pela ditadura a fim de manter a população desinformada e no cabresto da ignorância? E do Esquadrão da Morte? Essas pessoas não se lembram? Nunca ouviram falar? Provavelmente não.

Provavelmente, em função da própria censura e por estarem vivendo fora dos grandes centros como no caso de Bauru e tantas outras cidades do interior, alienaram-se e assim permanecem até hoje, na ignorância e na ilusão de que vivíamos num país pacífico, rico e tricampeão do mundo de futebol! Que via o PIB crescer na versão oficial a taxas chinesas de 10% aa. Era o Brasil do Ame-o ou Deixe-o! E quantos foram obrigados a deixá-lo.

Sei que muitos podem estar se perguntando agora como é que eu, um adolescente à época, posso estar me lembrando disso?

Ocorre que entre 1965 e 1971, morava eu num paraíso encravado na Serra da Cantareira chamado Mairiporã, na região da Grande São Paulo. No meio da incomparável e belíssima Mata Atlântica, costumava ir para a escola de manhãzinha no sopé da montanha do Pico do Olho D´agua quando, frequentemente, no caminho ouvia o burburinho entre os meus colegas dando conta da existência de mais um "presunto" encontrado nas estradinhas de terra existentes no perímetro urbano da pequenina cidade. Corpos que a polícia civil vinha recolher de manhã cedo e levar embora sei lá pra onde. Eram as vítimas do temido Esquadrão da Morte, um grupo paramilitar informal criado com o único objetivo de eliminar os que se opunham à ditadura militar. Assassinos profissionais que nunca foram identificados.

Esses episódios me marcaram e, na minha ingenuidade adolescente, tinha medo de topar com esse terrível esquadrão. Com o tempo a população da cidade apelidou o evento como "a segunda da desova", porque elas aconteciam na maioria das vezes às segundas-feiras. No auge da ditadura eram "desovados" até dois cadáveres por semana. Infelizmente Mairiporã não era o único local para desova, elas também ocorriam em outras cidades da região como Franco da Rocha e Caieiras. Alguns podem querer argumentar que podia se tratar de assassinatos comuns e que o número de pessoas encontradas mortas em São Paulo hoje é maior.

Pode até ser, porém, na época os corpos desovados crivados de bala, eram, em sua maioria, de perseguidos políticos, críticos do regime ou qualquer um que a ditadura, em sua paranoia, julgasse uma ameaça ao seu poder. Essa era a verdadeira cara da ditadura militar que se impôs aos brasileiros. Essa história (assim mesmo com "h"), senhores, eu vivi! Ninguém me contou. E agora me sinto na obrigação de contar isso a vocês para que, aqueles que se esqueceram, relembrem e, aqueles que nunca souberam, saibam com quem estão flertando!